As eleições legislativas dos Açores vieram abanar muitas consciências adormecidas. Esta talvez seja a melhor explicação para a redução (muito pequena) dos valores da abstenção, apesar da pandemia. Outra interpretação possível para este fenómeno, será um cansaço da população para um governo autocrático, de muitos compadrios e com alguns laivos de nepotismo.
Numa região pobre,
ultraperiférica, todo o poder instituído tende a eternizar-se porque ao longo
de muitos anos se criam relações de dependências, entre esse mesmo poder e as
benesses que distribui a seu belo prazer. Não deve haver um único açoriano que
não tenha um familiar ligado à estrutura da administração regional ou de alguma
empresa pública. Não se pense que isto seja uma realidade atribuída, em
exclusivo, ao PS e os seus 24 anos no poder. No tempo dos governos do PSD, as
coisas seguiram um padrão muito parecido, e, muito provavelmente, se ó não foi
maior por não haver tanto para distribuir.
Os resultados eleitorais
reflectem, muito provavelmente, este raciocínio: o fim de uma maioria absoluta
e o aparecimento de novas forças políticas. No entanto, estamos cientes de que
esta realidade deve representar apenas a ponta do iceberg. Ninguém deveria
imaginar no passado sábado, o imbróglio que estas eleições viriam criar. O
aparecimento de novas forças políticas e com representação inimaginável. São os
casos da Iniciativa Liberal e do Chega. Também não deixa de ser indecifrável o
desaparecimento do PCP, sabendo-se como se sabe, da enorme capacidade organizativa
deste partido. Por outras palavras, todas as soluções governativas podem ser
esquematizadas: uma solução entre o PS, PAN e BE, ou uma “geringonça” de
direita com os restantes partidos, em que o CHEGA se auto-excluiu. O papel de
CDS e do PPM ainda ninguém sabe qual irá ser: se estarão disponíveis para viabilizar uma
solução com o PS, ou se irão juntar-se à direita. Ninguém sabe como irão
decorrer as negociações, e qual será o arranjo político que irá decidir os
destinos da Região na próxima legislatura. Uma coisa é certa, nada será como
antes. Estamos certos que com um parlamento mais colorido, as tentações
autocráticas não vão passar com a mesma facilidade.
Este fenómeno do surgimento
destas novas forças partidárias no espectro político açoriano, mais não são do
que a reacção dos eleitores a um crescente enfraquecimento dos factores de
desenvolvimento da população. Os índices da pobreza, os baixos índices da
escolaridade, a elevada dependência de muitos açorianos do RSI, a situação
desastrosa em que se encontram muitas das empresas públicas (o caso da Sata, é
paradigmático), são apenas algumas das razões que podem explicar este terramoto
eleitoral.
Um espelho reflecte uma imagem
real que está na sua frente, mas não deixa ver o que está por detrás dessa
superfície. Esta poderá ser uma figura para explicar a sobranceria como o PS
exerceu a sua influência ao longo destas duas décadas, assente na tal teia de
dependências. As coisas mudaram. Nada, a partir de agora, será como dantes.
Vamos aguardar que a solução que venha a ser encontrada, tenha a capacidade de
inverter a forma arbitrária como os Açores foram governados até agora. Vamos a
esperar para ver.

Sem comentários:
Enviar um comentário