segunda-feira, 26 de outubro de 2020

DO OUTRO LADO DO ESPELHO – As eleições legislativas açorianas

 


As eleições legislativas dos Açores vieram abanar muitas consciências adormecidas. Esta talvez seja a melhor explicação para a redução (muito pequena) dos valores da abstenção, apesar da pandemia. Outra interpretação possível para este fenómeno, será um cansaço da população para um governo autocrático, de muitos compadrios e com alguns laivos de nepotismo.

Numa região pobre, ultraperiférica, todo o poder instituído tende a eternizar-se porque ao longo de muitos anos se criam relações de dependências, entre esse mesmo poder e as benesses que distribui a seu belo prazer. Não deve haver um único açoriano que não tenha um familiar ligado à estrutura da administração regional ou de alguma empresa pública. Não se pense que isto seja uma realidade atribuída, em exclusivo, ao PS e os seus 24 anos no poder. No tempo dos governos do PSD, as coisas seguiram um padrão muito parecido, e, muito provavelmente, se ó não foi maior por não haver tanto para distribuir.

Os resultados eleitorais reflectem, muito provavelmente, este raciocínio: o fim de uma maioria absoluta e o aparecimento de novas forças políticas. No entanto, estamos cientes de que esta realidade deve representar apenas a ponta do iceberg. Ninguém deveria imaginar no passado sábado, o imbróglio que estas eleições viriam criar. O aparecimento de novas forças políticas e com representação inimaginável. São os casos da Iniciativa Liberal e do Chega. Também não deixa de ser indecifrável o desaparecimento do PCP, sabendo-se como se sabe, da enorme capacidade organizativa deste partido. Por outras palavras, todas as soluções governativas podem ser esquematizadas: uma solução entre o PS, PAN e BE, ou uma “geringonça” de direita com os restantes partidos, em que o CHEGA se auto-excluiu. O papel de CDS e do PPM ainda ninguém sabe qual irá ser: se estarão disponíveis para viabilizar uma solução com o PS, ou se irão juntar-se à direita. Ninguém sabe como irão decorrer as negociações, e qual será o arranjo político que irá decidir os destinos da Região na próxima legislatura. Uma coisa é certa, nada será como antes. Estamos certos que com um parlamento mais colorido, as tentações autocráticas não vão passar com a mesma facilidade.

Este fenómeno do surgimento destas novas forças partidárias no espectro político açoriano, mais não são do que a reacção dos eleitores a um crescente enfraquecimento dos factores de desenvolvimento da população. Os índices da pobreza, os baixos índices da escolaridade, a elevada dependência de muitos açorianos do RSI, a situação desastrosa em que se encontram muitas das empresas públicas (o caso da Sata, é paradigmático), são apenas algumas das razões que podem explicar este terramoto eleitoral. 

Um espelho reflecte uma imagem real que está na sua frente, mas não deixa ver o que está por detrás dessa superfície. Esta poderá ser uma figura para explicar a sobranceria como o PS exerceu a sua influência ao longo destas duas décadas, assente na tal teia de dependências. As coisas mudaram. Nada, a partir de agora, será como dantes. Vamos aguardar que a solução que venha a ser encontrada, tenha a capacidade de inverter a forma arbitrária como os Açores foram governados até agora. Vamos a esperar para ver.

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