As eleições presidenciais que acabaram de ter lugar foram disputadas em condições, particularmente estranhas. Se por um lado se equacionava o supremo direito de cumprir uma obrigação constitucional e patriótica; por outro existia a indicação de confinamento, exaustivamente aconselhado por especialistas e governantes. Aparentemente, os portugueses resolveram arriscar, e junto das mesas de voto cumprirem o seu dever de eleitor. Apesar de bem organizadas as assembleias de voto, isso não evitou que muitos eleitores tivessem que esperar em filas entre 45 minutos e 1 hora. Felizmente, no meu caso o processo foi rápido e permitiu que a espera não fosse muito penosa. Apenas uma referência ao facto anedótico, que o candidato que aparecia no primeiro lugar do boletim do voto, fosse um candidato “fantasma”. Ninguém percebe!
Apesar desta ilusória
“normalidade”, não se pode esquecer, nem branquear muitas coisas que,
manifestamente estiveram longe, de que estas eleições pudessem ter sido
disputadas nas condições que as circunstâncias exigiam. Desde logo porque se
sabia que, muito provavelmente, iriam ser disputadas em plena pandemia e, por
maioria de razão, quando se falava numa segunda ou terceira vaga a manifestar-se
em data incerta. Impunha-se por isso, que com uma antecipação de cerca de um
ano, tivesse sido estudada e equacionada a hipótese do seu adiamento. Mesmo que
isso representasse mexer-se na Constituição, havendo empenhamento e vontade,
estou certo que os consensos podiam ter sido alcançados. A intransigência de
alteração da Constituição de forma a adaptá-la a uma realidade que ninguém
podia antever (a pandemia), só pode ser compreendida por complexos ideológicos,
ou por outra qualquer razão bem mais estranha.
Estas eleições apresentavam por
outro lado um cenário muito previsível – a reeleição de Marcelo Rebelo de
Sousa, logo à primeira volta. Isto, de certa forma, condicionou provavelmente,
alguns eleitores quanto à sua decisão: ir votar, ou ficar em casa e cumprir as
indicações de confinamento. Mesmo assim, o valor da abstenção ficou aquém das
previsões mais pessimistas, mesmo se levarmos em conta que o recenseamento automático de um
milhão os emigrantes que, incompreensivelmente, só podiam votar
presencialmente. Os restantes candidatos, na realidade, apenas pretendiam
marcar terreno, embora com razões e motivações diferentes.
A campanha eleitoral foi também
condicionada pela pandemia, mas mesmo assim, possibilitou que, candidatos e
eleitores acompanhassem todo processo e formassem a sua opinião. Isso não
significa que a campanha, e sobretudo, os debates primassem pela qualidade.
Também foi possível perceber que havia três estratégias fundamentais: 1 –
Tentar evidenciar a colagem de Marcelo aos erros da governação. E com isto
evidenciar a sua descredibilização, com vista a uma segunda volta. 2 – A luta
entre André Ventura e Ana Gomes na disputa do segundo lugar. 3 – Os restantes
candidatos falavam, essencialmente, para os simpatizantes para marcar o seu
terreno.
Os candidatos tiveram prestações
que sendo expectáveis, não deixaram de ter alguns momentos surpreendentes.
Marcelo Rebelo de Sousa optou por uma campanha minimalista, e talvez pela sua
experiência televisiva foi muito eficaz nos debates, muito particularmente com
André Ventura e Ana Gomes. Esta candidata foi a que, em nossa opinião, a que teve
a pior prestação ao nível dos debates e, apesar do obvio voto útil que agarrou,
obteve um resultado marginal sobre André Ventura. Marisa Matias mostrou-se
desmotivada e sem uma ideia convincente para o cargo. João Ferreira mostrou-se
bem preparado e, apesar da muito bem organizada máquina comunista, obteve uma
votação paupérrima, particularmente em regiões de tradicional influência do PCP.
Tiago Mayan foi a surpresa destas eleições. Com manifesta dificuldade
comunicacional, começou algo titubeante, mas paulatinamente foi conquistando
confiança e assertividade nas soluções liberais que defendia. Vitorino Silva,
foi muito maltratado a nível institucional. Fez uma campanha muito modesta, mas
com muita dignidade, e adoptou um discurso muito ao seu estilo dirigido a um
sector muito específico do eleitorado.
No habitual balanço que se faz
nestas ocasiões, entre quem ganhou e quem perdeu, podemos considerar que nos
vencedores inequívocos, e por razões completamente diferentes, colocar Marcelo
Rebelo de Sousa e André Ventura. No caso dos perdedores, ressalta o resultado
alcançado por Marisa Matias, que roça uma quase humilhação. João Ferreira que,
apesar do grande envolvimento e da máquina do PCP e de uma boa campanha, não
alcançou um resultado condizente. O caso de Ana Gomes obtém uma vitória pífia,
pelo 2º lugar, e pela concentração do voto útil da esquerda. Mayan Gonçalves conseguiu
o resultado animador para as hostes liberais, e Vitorino Silva, cumpriu os
mínimos.
A este propósito interessa ainda
realçar a vitória de António Costa que, sem se envolver pessoalmente, bem como ao
partido, consegue uma posição de maior preponderância sobre os parceiros à
esquerda, e a vitória da aposta num presidente condescendente. Rui Rio, pelo
contrário, fez um discurso desastroso, na tentativa de esconder a
insignificância dos resultados do PSD sob a sua direcção.
Uma palavra final de esperança,
que os partidos, de uma vez por todas, alterem a lei eleitoral. A pandemia e as
consequências dela resultantes, devia ser uma razão para que o assunto
merecesse uma adaptação a uma nova realidade que todos desconhecíamos, mas que
poderão prolongar-se no tempo. Não se percebe que as eleições não possam
decorrer em mais do que um dia. Igualmente não se entendem como não é possível
a implementação do voto por correspondência, ou voto electrónico. Deixar tudo
como está, leva-nos a pensar que os partidos não estão interessados em
facilitar a vida aos eleitores e fazer com que, o sempre presente problema da
abstenção, não possa ser resolvido por estas vias.
Sem comentários:
Enviar um comentário