quinta-feira, 29 de julho de 2021

OTELO - HERÓI OU VILÃO?


Já aqui escrevi que a história não se pode apagar. E é olhando para o passado que conseguimos, viver o presente, construir o futuro e, especialmente, evitar todos os erros cometidos. Isto tem ainda mais significado no caso de Otelo Saraiva de Carvalho que, num curto período da nossa vida colectiva, conseguiu congregar em si, o melhor e o pior de um herói.

Quis deixar passar algum tempo, e mesmo assim, questionei-me sobre a utilidade deste meu escrito, por considerar que a maioria dos defensores e/ou detractores de Otelo Saraiva de Carvalho, assentam as suas opiniões, mais com base em convicções ideológicas, do que numa análise serena sobre o percurso deste capitão de Abril. As opiniões plasmadas neste blog, nunca tiveram a pretensão de influenciar o pensamento de quem quer que seja, mas tão somente, um desabafo sobre a minha visão dos acontecimentos.  Mas a quantidade de opiniões emitidas a glorificar ou a condenar este capitão de Abril, levaram-me e fazer a minha análise, desse período determinante das nossas vidas, neste Portugal democrático.

O 25 de Abril apanha-me no início da minha vida profissional, e pouco tempo depois de ter terminado o serviço militar com uma comissão em Timor. A viagem de ida e volta para Timor, permitiu-me conhecer vários países, e em continentes diferentes e adquirir uma nova consciência para aquilo que via em Portugal. Trabalhava nessa altura, numa empresa de capitais estrangeiros, com a responsabilidade de uma exploração agrícola, algures entre Santarém e o Cartaxo. Lembro-me de, na minha roda de amigos, termos comentado o abortado golpe do 15 de Março, como uma oportunidade perdida, de dar à volta a um país estagnado.

Otelo é tido por muitos como o estratega da revolução, e muitos outros (onde eu me incluo), atribuem este desígnio a Melo Antunes, por ser um militar muito mais politizado e com uma maior bagagem intelectual. Otelo foi por outro lado, o operacional que concebeu e implementou um “plano de operações” vitorioso, elaborado na clandestinidade, e arregimentando em torno de si os elementos necessário para o concretizar. Este mérito ninguém lho pode retirar. E foi graças ao Movimento dos Capitães que todos nós podemos viver em liberdade e num regime democrático. Esta é a faceta heróica de Otelo Saraiva de Carvalho.

A partir deste momento, Otelo ganhou uma importância política e militar que penso que nem ele próprio esperaria tanto. Deslumbrou-se com o poder. Formou o COPCON - uma entidade de poder absoluto sobre toda a estrutura militar. Deixou-se embarcar num delírio revolucionário, conduzindo o país para muito próximo de uma guerra civil. Todos aqueles que viveram o Verão Quente de 1975, perceberam que os ideais do Movimento dos Capitães, não estavam a ser cumpridos. A título de exemplo, eu fazia diariamente um percurso de 8 km numa estrada nacional, e era parado 3 vezes no caminho por “piquetes revolucionários”, armados de bastões e correntes, sem qualquer identificação oficial, revistavam os automóveis e não se coibiam de proferir ameaças objectivas, sempre que demonstrássemos qualquer sentimento de incómodo perante tal situação. Vivia em permanente sobressalto pela generalizada ocupação de explorações agrícolas, que dia após dia aconteciam em explorações vizinhas, apenas por serem rentáveis ou pertencentes a “contra-revolucionários”.

Não conseguiu resistir ao chamamento político e promoveu muitas acções que, serão no mínimo, condenáveis num país que se queria democrático. Os mandatos em branco, a sua ligação ás FP – 25 de Abril; os assassinatos políticos (cerca de uma vintena), tão condenáveis como os cometidos pelo MDLP, e que o conduziram à sua condenação e prisão, como mentor deste grupo terrorista. O 25 de Novembro, representou alguma esperança de que as coisas pudessem seguir um caminho que estaria nos princípios do Movimento dos Capitães, com o regresso dos militares aos quarteis e o retorno aos princípios democráticos. Hoje em dia falar na importância do 25 Novembro, parece constituir um anátema contra-revolucionário.

A amnistia que lhe foi atribuída por Mário Soares, parece-me ter sido concedida mais como uma forma de retribuir alguma dignidade ao operacional do 25 de Abril, do que um perdão sobre os crimes por que foi condenado.

Por oposição, Salgueiro Maia nunca se deslumbrou com o protagonismo no 25 de Abril. Tive o privilégio de ter privado com ele alguns anos antes, e tenho que lhe reconhecer uma estatura moral digna de um autêntico herói. Fico triste por verificar que Salgueiro Maia foi ignorado, abandonado com a complacência de muitos camaradas de armas, ao mesmo tempo que se glorifica alguém que, apesar de todo o heroísmo, teve as mãos sujas de sangue.

A pergunta que me questiono é: Otelo passou pela vida dos portugueses como herói, ou vilão? Sinceramente não tenho a resposta definitiva. Faço, porém, o seguinte exercício: coloco num dos partos da balança (do herói) o seu contributo incontornável para o sucesso da Revolução dos Cravos e para o que ela significou, como sinal de esperança, para um jovem com pouco mais de vinte anos. Do outro (do vilão), todos os desmandos por ele cometidos. Não consigo ver a balança equilibrada, e o prato do vilão está muito mais pesado, do que o prato do herói. Outros, tal como eu, têm a liberdade de ver, exactamente, o contrário. Isso não pode fazer de cada um que defenda uma, ou outra opinião, nem patriota, nem contra-revolucionário.

Que descanse em paz.

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