Nunca ouvimos falar tanto de
transparência como agora. Não há um único responsável, por qualquer chafarica,
que não evite afirmar que agora é que vai haver transparência, limpidez, acções
cristalinas, desapego, blá, blá, blá. Tornou-se um tique, em tudo semelhante à
intolerância ao glúten. Ou seja, de um momento para o outro todos são pessoas
sérias, honestas, transparentes e que nada têm a esconder; da mesma forma que
repentinamente, todos nos tornamos intolerantes ao glúten! Mais parece uma
moda.
Por outro lado, sempre que um caso
mais bicudo é descoberto, logo há quem jure ir fazer um “rigoroso inquérito”, e
tudo será apurado, e os visados devidamente responsabilizados. Invariavelmente
o que se observa é que o tempo faz esquecer tudo e, a culpa morre sempre
solteira. Os exemplos são muitos e variados. E mesmo as intenções do mais alto
magistrado da nação: “esclarecer tudo, até às últimas consequências, doa a
quem doer”, parecem cair em saco roto, ou quando muito, demoram uma
eternidade até se ter alguma informação. Foi assim no caso de Tancos, no
negócio das barragens, no caso do SEF do aeroporto, no acidente do ministro
Cabrita, etc. Pior do que isso, é que ninguém parece estar muito preocupado (!?!)
Meio
milhão de euros para associação fantasma de produtores de figo-da-índia, é
a mais recente história onde se pode observar tudo, menos transparência. É que
para além do cheiro a trafulhice, coexistem outos aspectos obscuros que
careciam de um sério e rápido esclarecimento. Estão envolvidos nomes de gente
conhecida, democraticamente eleita e que têm obrigação de actuar de forma cristalina
e evitar os indisfarçáveis indícios de compadrio. Casos como estes prejudicam,
em primeiro lugar, os contribuintes, e depois todos os agricultores de Castelo
Branco, que viram nesta “associação” uma inestimável esperança numa cultura
promissora e inovadora para uma região de interior com poucas alternativas
culturais. Esta associação foi criada em 2015 e teve uma actividade residual
nos anos de 2016 e 2017 e, tanto quanto se sabe, pouco contribui para o desenvolvimento
daquela cultura na região. Isso não impediu que tivessem sido gastos os tais meio
milhão de euros, que beneficiaram muita gente que pouco tem a ver com a cultura
e produção do dito figo da Índia.
Já lá vão alguns anos de
existência desta associação. Para o apuramento da verdade deviam ser ouvidos,
em primeiro lugar, os agricultores que beneficiaram (?) desta iniciativa. Depois
verificar os indícios de promiscuidade dentre os diversos envolvidos não vão,
uma vez mais cair no esquecimento.
A criação de uma associação com
estes princípios destinava-se, penso eu, em proporcionar aos eventuais
produtores, benefícios para a implantação, apoio técnico, formação e apoio
logístico à distribuição e comercialização. Por aquilo que parece, os tais
benefícios tiveram outros destinatários, que não os agricultores.
Vamos aguardar, uma vez mais, que
a investigação que este caso exige, não demore o mesmo tempo que está a levar
descobrir a que velocidade circulava o carro que transportava o ministro Cabrita,
quando atropelou um trabalhador na A6, no passado dia 18 de Junho.
Parece que é mais transparente o
Figo da Índia, do que o esclarecimento deste e doutros casos.

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