quinta-feira, 12 de agosto de 2021

A TRANSPARÊNCIA E O FIGO DA ÍNDIA

 

Nunca ouvimos falar tanto de transparência como agora. Não há um único responsável, por qualquer chafarica, que não evite afirmar que agora é que vai haver transparência, limpidez, acções cristalinas, desapego, blá, blá, blá. Tornou-se um tique, em tudo semelhante à intolerância ao glúten. Ou seja, de um momento para o outro todos são pessoas sérias, honestas, transparentes e que nada têm a esconder; da mesma forma que repentinamente, todos nos tornamos intolerantes ao glúten! Mais parece uma moda.

Por outro lado, sempre que um caso mais bicudo é descoberto, logo há quem jure ir fazer um “rigoroso inquérito”, e tudo será apurado, e os visados devidamente responsabilizados. Invariavelmente o que se observa é que o tempo faz esquecer tudo e, a culpa morre sempre solteira. Os exemplos são muitos e variados. E mesmo as intenções do mais alto magistrado da nação: “esclarecer tudo, até às últimas consequências, doa a quem doer”, parecem cair em saco roto, ou quando muito, demoram uma eternidade até se ter alguma informação. Foi assim no caso de Tancos, no negócio das barragens, no caso do SEF do aeroporto, no acidente do ministro Cabrita, etc. Pior do que isso, é que ninguém parece estar muito preocupado (!?!)

Meio milhão de euros para associação fantasma de produtores de figo-da-índia, é a mais recente história onde se pode observar tudo, menos transparência. É que para além do cheiro a trafulhice, coexistem outos aspectos obscuros que careciam de um sério e rápido esclarecimento. Estão envolvidos nomes de gente conhecida, democraticamente eleita e que têm obrigação de actuar de forma cristalina e evitar os indisfarçáveis indícios de compadrio. Casos como estes prejudicam, em primeiro lugar, os contribuintes, e depois todos os agricultores de Castelo Branco, que viram nesta “associação” uma inestimável esperança numa cultura promissora e inovadora para uma região de interior com poucas alternativas culturais. Esta associação foi criada em 2015 e teve uma actividade residual nos anos de 2016 e 2017 e, tanto quanto se sabe, pouco contribui para o desenvolvimento daquela cultura na região. Isso não impediu que tivessem sido gastos os tais meio milhão de euros, que beneficiaram muita gente que pouco tem a ver com a cultura e produção do dito figo da Índia.

Já lá vão alguns anos de existência desta associação. Para o apuramento da verdade deviam ser ouvidos, em primeiro lugar, os agricultores que beneficiaram (?) desta iniciativa. Depois verificar os indícios de promiscuidade dentre os diversos envolvidos não vão, uma vez mais cair no esquecimento.

A criação de uma associação com estes princípios destinava-se, penso eu, em proporcionar aos eventuais produtores, benefícios para a implantação, apoio técnico, formação e apoio logístico à distribuição e comercialização. Por aquilo que parece, os tais benefícios tiveram outros destinatários, que não os agricultores.

Vamos aguardar, uma vez mais, que a investigação que este caso exige, não demore o mesmo tempo que está a levar descobrir a que velocidade circulava o carro que transportava o ministro Cabrita, quando atropelou um trabalhador na A6, no passado dia 18 de Junho.

Parece que é mais transparente o Figo da Índia, do que o esclarecimento deste e doutros casos.

 

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