Joaquim Aguiar disse, “o povo tem sempre razão, mesmo quando não sabe
a razão que tem.” Nada mais certo depois destas eleições, que davam o
favoritismo a um certo establishment, cheio de virtudes e de obra feita.
Como se isto não bastasse o primeiro-ministro envolveu-se na campanha,
prometendo os milhões da bazuca de uma forma despudorada. A generalidade da população
não deve saber muito bem como e onde irão ser aplicados tantos milhões. Mas
sabe exactamente o que foi, ou não feito na sua cidade. Sente na pele as
fragilidades das promessas que não foram realizadas. Vê com muito clareza que o
seu município não progride como os seus vizinhos. Sente que a sua cidade não
está dotada das infra-estruturas exigidas por uma sociedade moderna. Vê que
para satisfazer algumas necessidades elementares, as tem que procurar noutro
local. Sente que algumas potencialidades não são efectivamente aproveitadas.
Os resultados finais constituíram uma surpresa para toda a gente. Havia
vitórias antecipadas, garantidas pelas sondagens, pelos média, e pela
generalidade dos especialistas. Desvalorizaram-se os pequenos partidos,
invocou-se a falta de experiência de alguns candidatos e até os apelidaram de “fofinhos”.
Como sempre arranjaram-se justificações para garantir que, apesar de tudo, se
tratou de uma vitória, e os que perderam, garantiam sempre que, apesar de tudo,
as coisas não foram assim tão más.
O poder autárquico, pela sua proximidade com o cidadão, permite o conhecimento
de uma realidade vivida diariamente, e pela memória de promessas não cumpridas.
Se nos distanciarmos das questões político-partidárias, podemos pensar que o
povo saiu à rua, abanou a árvore e caiu muita fruta podre. Ou seja, o eleitor
pode não saber exactamente o que quer, mas sabe convictamente aquilo que não
está disposto a sancionar. E esta foi a realidade, um pouco por toda a parte.
Uma vez mais a questão da abstenção, que praticamente ninguém referiu,
cai como uma nódoa de que todos podemos lastimar. A proximidade do político com
os eleitores não pode estar restringida apenas ao tempo da campanha eleitoral e,
passado este período, cair tudo em saco roto. As razões invocadas para não ir
votar são muitas e variadas. Mas também é verdade que o poder instituído nada
faz para alterar este estado de coisas (voto electrónico, voto em dia de
semana, voto em vários dias, redução da idade de voto, voto antecipado por
correspondência, voto obrigatório, etc.).
Seria bom que todos os candidatos, vencedores ou vencidos tomasse
consciência desta realidade e que no futuro levasse em consideração que o
suporte de um partido, as promessas inviáveis, os milhões prometidos, nem
sempre são suficientes para convencerem o eleitor das suas “bondades”.
Concordo com as propostas de combate à abstenção. Penso, aliás, que a maioria dos políticos também. Então por que não legislam?
ResponderEliminarPorque receiam que a abstenção se mantenha!