segunda-feira, 27 de setembro de 2021

NO RESCALDO DESTAS ELEIÇÕES

Joaquim Aguiar disse, “o povo tem sempre razão, mesmo quando não sabe a razão que tem.” Nada mais certo depois destas eleições, que davam o favoritismo a um certo establishment, cheio de virtudes e de obra feita. Como se isto não bastasse o primeiro-ministro envolveu-se na campanha, prometendo os milhões da bazuca de uma forma despudorada. A generalidade da população não deve saber muito bem como e onde irão ser aplicados tantos milhões. Mas sabe exactamente o que foi, ou não feito na sua cidade. Sente na pele as fragilidades das promessas que não foram realizadas. Vê com muito clareza que o seu município não progride como os seus vizinhos. Sente que a sua cidade não está dotada das infra-estruturas exigidas por uma sociedade moderna. Vê que para satisfazer algumas necessidades elementares, as tem que procurar noutro local. Sente que algumas potencialidades não são efectivamente aproveitadas.

Os resultados finais constituíram uma surpresa para toda a gente. Havia vitórias antecipadas, garantidas pelas sondagens, pelos média, e pela generalidade dos especialistas. Desvalorizaram-se os pequenos partidos, invocou-se a falta de experiência de alguns candidatos e até os apelidaram de “fofinhos”. Como sempre arranjaram-se justificações para garantir que, apesar de tudo, se tratou de uma vitória, e os que perderam, garantiam sempre que, apesar de tudo, as coisas não foram assim tão más.

O poder autárquico, pela sua proximidade com o cidadão, permite o conhecimento de uma realidade vivida diariamente, e pela memória de promessas não cumpridas. Se nos distanciarmos das questões político-partidárias, podemos pensar que o povo saiu à rua, abanou a árvore e caiu muita fruta podre. Ou seja, o eleitor pode não saber exactamente o que quer, mas sabe convictamente aquilo que não está disposto a sancionar. E esta foi a realidade, um pouco por toda a parte.

Uma vez mais a questão da abstenção, que praticamente ninguém referiu, cai como uma nódoa de que todos podemos lastimar. A proximidade do político com os eleitores não pode estar restringida apenas ao tempo da campanha eleitoral e, passado este período, cair tudo em saco roto. As razões invocadas para não ir votar são muitas e variadas. Mas também é verdade que o poder instituído nada faz para alterar este estado de coisas (voto electrónico, voto em dia de semana, voto em vários dias, redução da idade de voto, voto antecipado por correspondência, voto obrigatório, etc.).

Seria bom que todos os candidatos, vencedores ou vencidos tomasse consciência desta realidade e que no futuro levasse em consideração que o suporte de um partido, as promessas inviáveis, os milhões prometidos, nem sempre são suficientes para convencerem o eleitor das suas “bondades”.

 


1 comentário:

  1. Concordo com as propostas de combate à abstenção. Penso, aliás, que a maioria dos políticos também. Então por que não legislam?
    Porque receiam que a abstenção se mantenha!

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