O previsível fim da Geringonça, por uma natural incompatibilidade genética, e as anunciadas eleições antecipadas, têm suscitado as maiores dúvidas na cabeça de políticos, analistas e, sobretudo, na dos eleitores. Desde a anunciada derrota (?!?) política de António Costa, ao inusitado ressurgimento político de Rui Rio, são inúmeros os cenários traçados. Na realidade parece-nos haver um evidente exagero em muitos destes cenários.
Provavelmente António Costa não
vai capitalizar, como ele eventualmente previra o descontentamento pelo fim dos
entendimentos feitos à esquerda, pelos descontentes desta faixa do eleitorado. Muito
naturalmente, Rui Rio também não vai ser capaz de vencer a distância que o
separa do PS nas intenções de votos. Como também não é certo que os novos pequenos
partidos venham a ter a subida fulgurante que muitos vaticinam. No entanto,
parece muito provável que PCP, BE e CDS, venham a sofrer consequências nefastas
das suas recentes acções políticas, e por razões diferentes. Mesmo considerando
a fidelidade do eleitorado comunista, parece que dificilmente o PCP irá escapar
ao descontentamento da não viabilização de um orçamento muito favorável às
pretensões comunistas. Por seu turno, o BE deve seguir uma trajectória
semelhante, mesmo tratando-se de um eleitorado mais urbano e menos proletarizado.
Já no caso do CDS, a mais do que provável perca de representatividade, ficará a
dever-se a uma tentativa desesperada do seu líder de se agarrar a um poder que
lhe fugia. Fez tudo para esse efeito, e acabou sozinho.
Apesar de uma mais do que
previsível maioria das intenções de votos parecer recair sobre o PS, os sinais
de nervosismo são mais do que evidentes. Multiplicam-se o ataque a tudo e a
todos. As tentativas de branqueamento da acção de Eduardo Cabrita, pela sua desastrosa
passagem pelo MAI, aparecem sem qualquer pudor. A dedução de acusação do
Ministério Publico sobre dois ex-governantes socráticos, é vista como uma
tentativa de influenciar o curso das próximas eleições.
Do lado do PSD vive-se um clima
de euforia com a vitória do resistente Rui Rio, sobre Paulo Rangel. E mesmo a redução
da monumental diferença nas intenções de voto para o PS, são encaradas como uma
probabilidade mais do evidente. Terá sido por isto que foi negada a
possibilidade de uma coligação com o CDS? O benefício que tal solução podia
garantir, tendo em conta o método de Hondt, um benefício evidente. Mas tal não
foi suficiente para convencer os sociais-democratas.
Os eleitores portugueses estão
confrontados com muitas as dúvidas e muito poucas certezas. A probabilidade de
uma reedição da Geringonça, está completamente posta de parte, penso eu. Mesmo
que qualquer um dos parceiros desse um golpe de rins (e já vimos de tudo), o
que é que o país ganharia com esta solução?
As declarações de António Costa quanto
a uma necessidade de entendimento com o PSD, não deixam margem para dúvidas,
nem uma solução de Bloco Central seria desejável, por razões óbvias. No meio de
toda esta confusão, restam os dois partidos novos, IL e CHEGA, que, muito
provavelmente, irão ter uma mais do que provável subida. Isto levanta outro
problema, quem irá contar com a sua participação? Se no caso da IL, isto poderá
ser natural, ou pelo menos pacífico, no caso do CHEGA, as coisas vão ser bem
mais complicadas. Estará Rui Rio disponível para uma solução, como a encontrada
nos Açores? Embora ainda não tenham ainda saído as listas, alguns nomes
ventilados cheiram a requentado.
Será uma utopia aspirar ter
governos estáveis, competentes e duradouros? Governos minoritários, suportados por
acordos de incidência parlamentar são a norma por essa Europa a que queremos
pertencer. Na verdade, o problema não está na solução. O problema parece estar
nos protagonistas. Não somos pequenos apenas em termos territoriais. A nossa
pequenez estende-se à forma como fazemos política. Organizamos a nossa
estrutura governativa com base nas amizades e nas fidelidades. Temos um Estado
grande e pesado, para dar guarida a uma infindável teia de boys. Raramente se
favorecemos a competência e a experiência, e assistimos impavidamente a sermos
ultrapassados por parceiros europeus, como se de uma fatalidade se tratasse.
Podíamos aproveitar as próximas
eleições para dar um abanão na árvore. Há lá muita fruta podre. Se outras
razões não houvesse, este poderia ser o mote para evitar o sempre crescente desinteresse
das populações pêlos actos eleitorais e o consequente aumento da abstenção. Nem
a bazuca nos vai salvar, se aqueles que a vão surgir vão ser os mesmos. Estas eleições deveriam servir para emendarmos,
o estado de paz podre que vivemos neste momento . Pode não haver mais nenhuma outra oportunidade.
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