Como já aqui referi, estas
eleições estão a ser disputadas num estranhíssimo ambiente. Sobretudo, se visto
na perspectiva do eleitor, porque na dos protagonistas, alguns parecem muito
confortáveis. Dado o cenário pandémico, que se agrava a cada dia que passa, com
uma previsibilidade de uma centena de milhar de novas contaminações para a
semana das eleições, torna-se incompreensível que não tenha sido equacionada
uma solução alternativa, ou, dada a impossibilidade de adiamento das eleições,
que tivesse havido o bom senso de que estas se realizassem em finais de Fevereiro,
como alguns aconselhavam.
Dos pouco debates já realizados,
já dá para ver que o modelo escolhido, permite tudo menos esclarecer os
eleitores sobre os aspectos fundamentais sobre os quais estes irão decidir. Até
agora os moderadores insistem em saber quais os entendimentos que os partidos
estão dispostos a aceitar num cenário do day after, e os participantes
em esconder essa sua vontade. Não que isso não seja importante na óptica do
eleitor, mas coisas tão importantes como: dívida pública, inflação, saúde, educação,
pobreza, demografia, carga fiscal, energia, alterações climáticas, descarbonização,
refugiados, revolução digital, reformas, etc. Ou seja, coisas que mexem com a
vida de cada um de nós, parecem merecer pouca atenção e até mesmo algum receio;
para dar lugar a soundbites histriónicos que desviam a atenção do ouvinte,
mas pouco acrescentam ao debate. Alguns destes lembram o modelo de programas
futebolísticos, bem ao estilo da CMTV.
Voltando ao modelo dos debates, a
pergunta que se impõe é saber o que se pode esclarecer em 25 minutos (12’ 30”
para cada participante), e sem um tema específico e importante? Mesmo que o
moderador o possa apresentar, é fácil levar resposta para o campo, ou a ideia
que ao participante lhe der mais conveniência. Visto de outra forma, esta arquitectura
favorece, preferencialmente, o interveniente que fizer mais ruído, que
interromper com mais frequência, ou que melhor dominar as técnicas de
comunicação, sobretudo televisiva.
Já não vamos a tempo de mudar o
que quer que seja. Embora estas eleições não tenham essa finalidade, estamos
condenados a escolher um futuro primeiro-ministro, num processo eleitoral pouco
esclarecedor, num clima pandémico de dimensão considerável, com um cenário de
uma abstenção eventualmente maior do que as anteriores. Os portugueses, por
aquilo que parecem reflectir as sondagens, já não estão muito preocupados com
que tipo de geringonça iremos ter. Gostavam de conhecer o que cada um dos partidos
estrão dispostos a ceder para melhorar a vida de cada um de nós. Os primeiros
cenários de que nada disto irá acontecer, podem ver-se numa promessa de
campanha, com a redução para 4 (quatro) dias a jornada de trabalho e o salário
mínimo para os 900 em 2026! Isto é populismo no seu pior. Não que a proposta
não fosse desejável, mas como é possível sequer imaginar esta cenário, num país
cuja produtividade é a que se sabe?
Vamos ser massacrados com 16
debates, sem ideias nem propostas, e com um tema comum - que entendimentos
estão os partidos dispostos a aceitar, e/ou com quem nunca aceitarão governar.
Vão ganhar os debates quem for mais populista, ou quem ao estilo dos feirantes
berrar mais alto.
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