Não posso começar este desabafo sem fazer uma declaração de interesses – sou um perfeito ignorante em matéria de economia. A minha ignorância aumenta significativamente, quando ouço discutir assuntos económicos entre os “especialistas”. Aceito que a economia, não sendo uma ciência exacta, não pode reflectir entendimentos opostos relativamente a um determinado assunto. Talvez por isso fico com a sensação de que determinadas matérias são abordadas, utilizando uma dialéctica complexa, com o propósito de confundir, ou iludir os ignorantes como eu, relativamente à bondade das medidas apresentadas.
Ouvir o ministro das finanças, a dizer que: "em nenhum dicionário de política, é uma política de austeridade, referindo-se ao OE .” Fico com a sensação de que o termo austeridade, se tornou numa palavra maldita, e que no entendimento dos nossos governantes, quem a profere não passa de uma cavalgadura.Quando se aplica uma taxa temporária sobre o ISP para compensar as receitas do Estado pela baixa dos preços do crude, quando este sobe e não se reverte a taxa aplicada, quer dizer que eu estou a pagar mais pelo mesmo bem e o único beneficiário é o Estado; quando o custo de um pão é de 0,98€, passa em Fevereiro para 1,05€, e em Abril para 1,15€; quando um agricultor pagou em 2021 400,00€/ton. por um determinado fertilizante, e o mesmo fertilizante na actual campanha passa para 900,00€/ton. Se isto não é austeridade, não sei o que será.
Uma parte desta austeridade deve-se a factores externos e conjunturais, todos podemos compreender. Mais difícil é entender a apresentação de um orçamento, rejeitado há seis meses, e apresentado agora, sem alterações substanciais, parece esquecer que, entretanto, estalou uma guerra entre dois países, dos quais dependem fortemente o abastecimento da Europa em gás, petróleo, adubos, cereais e oleaginosas. Mesmo antes da guerra na Ucrânia já suportamos uma pandemia, as consequências do Brexit, a crise das matérias-primas, etc. Se a austeridade já estava instalada antes do conflito, fácil é imaginar os tempos que nos esperam.
Este complexo em utilizar um termo como austeridade, e o recurso à semântica para contornar uma realidade que todos os totós como eu sentem no bolso, a cada dia que passa, só pode classificar-se como desonestidade política. Tanto mais que a simples existência de austeridade, aumenta a receita do Estado por via dos impostos. Se esta aumento da receita servir para reduzir a nossa dívida soberana, até se pode aceitar. Mas será que vai ser assim?

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