terça-feira, 5 de abril de 2022

A UCRÂNIA E A HIPOCRISIA OCIDENTAL

A guerra na Ucrânia não deixa de nos surpreender, e pelas piores razões. Se há pouco mais de um mês todos achávamos pouco plausível a invasão de um país soberano, pelo exército da Federação Russa, as recentes imagens que nos chegam da linha da frente, nos locais abandonados pelo exército invasor, não conseguimos encontrar justificação para tanta brutalidade, atrocidade e insensibilidade. Se a geopolítica avisou dos desvarios que Putin podia encabeçar, o ocidente fez orelhas moucas pensando no seu bem-estar garantido pelo gás e petróleo russos. Mesmo levando em linha de conta que após o início do conflito foi apresentado um conjunto vasto de pesadas sanções, houve o cuidado de não incluir aqueles dois elementos essenciais ao nosso bem-estar.

Mesmo quando Joe Bidem chamou criminoso e carniceiro a Vladimyr Putin, algo que todos aceitam como verdadeiro, mas que o politicamente correcto instituído, considera desajustado, e democraticamente inaceitável, não conseguimos por de pé uma união global para o total isolamento económico do país invasor, como único meio alternativo a uma entrada directa no conflito.

Não basta condenar a invasão. É preciso que os povos ocidentais, mais dependentes do gás e petróleo russos entendam que para continuarem a ter as suas casas aquecidas, e os combustíveis a um preço equiparado ao dos restantes países europeus; muitos são os ucranianos que vivem sem tecto, sem água, sem electricidade, espoliados de tudo o que tinham e vítimas das piores sevícias praticadas pelo invasor, como pudemos constatar em Boucha. Neste cenário de catástrofe humanitária, não intervir e apelar à preservação os direitos humanos, fará algum sentido? Selensky diariamente implora por mais e melhor ajuda, para que esta luta entre David e Golias possa fazer algum sentido, não só porque configura uma justíssima reacção de defesa pessoal, mas porque é absolutamente justa à luz do direito internacional.

Perante tanta atrocidade não basta ficar consternado com as imagens que nos chegam da Ucrânia. É preciso ir muito mais além. A Rússia tem que sentir na pele que a forma como tem gerido esta “operação militar especial” não pode ficar impune. Bombardeamentos feitos à distância não poupa escolas, hospitais, teatros, centros comerciais, mercearias, com a desculpa de albergar estruturas militares são o pretexto para arrasar cidades completas. Nem os civis indefesos são barbaramente assassinados. As atrocidades praticadas em Boucha, a destruição do Teatro e de uma maternidade em Mariupol, são provavelmente, a ponta do icebergue daquilo que os russos foram capazes de fazer sobre populações indefesas. Porque perante a coragem e tenacidade dos combatentes ucranianos, tiveram que retirar, apesar da diferença dos meios.

Por quanto mais tempo vamos ser “solidários”, enviando para a Ucrânia umas roupas que já não usamos, recebendo alguns refugiados, aplicando um pacote de sanções que deixam de fora, algo que garante o pagamento do esforço de guerra russo. Mesmo o Conselho de Segurança das Nações Unidas, cujo mandato é zelar pela manutenção da paz e segurança internacional, estão de mãos atadas pelo estatuto de excepção do direito de veto, concedidos dos membros permanentes, pouco ou nada pode fazer.

Vamos continuar a estar ao lado do povo ucraniano, desde que isso não afecte o nosso conforto e comodidade. Como dizia Gustave Flaubert: “A fraternidade é uma das mais belas invenções da hipocrisia social.”

 


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