A guerra na Ucrânia não deixa de
nos surpreender, e pelas piores razões. Se há pouco mais de um mês todos achávamos
pouco plausível a invasão de um país soberano, pelo exército da Federação Russa,
as recentes imagens que nos chegam da linha da frente, nos locais abandonados
pelo exército invasor, não conseguimos encontrar justificação para tanta
brutalidade, atrocidade e insensibilidade. Se a geopolítica avisou dos
desvarios que Putin podia encabeçar, o ocidente fez orelhas moucas pensando no
seu bem-estar garantido pelo gás e petróleo russos. Mesmo levando em linha de
conta que após o início do conflito foi apresentado um conjunto vasto de pesadas
sanções, houve o cuidado de não incluir aqueles dois elementos essenciais ao
nosso bem-estar.
Mesmo quando Joe Bidem chamou criminoso
e carniceiro a Vladimyr Putin, algo que todos aceitam como verdadeiro, mas que
o politicamente correcto instituído, considera desajustado, e democraticamente
inaceitável, não conseguimos por de pé uma união global para o total isolamento
económico do país invasor, como único meio alternativo a uma entrada directa no
conflito.
Não basta condenar a invasão. É preciso
que os povos ocidentais, mais dependentes do gás e petróleo russos entendam que
para continuarem a ter as suas casas aquecidas, e os combustíveis a um preço
equiparado ao dos restantes países europeus; muitos são os ucranianos que vivem
sem tecto, sem água, sem electricidade, espoliados de tudo o que tinham e vítimas
das piores sevícias praticadas pelo invasor, como pudemos constatar em Boucha.
Neste cenário de catástrofe humanitária, não intervir e apelar à preservação os
direitos humanos, fará algum sentido? Selensky diariamente implora por mais e
melhor ajuda, para que esta luta entre David e Golias possa fazer algum
sentido, não só porque configura uma justíssima reacção de defesa pessoal, mas
porque é absolutamente justa à luz do direito internacional.
Perante tanta atrocidade não
basta ficar consternado com as imagens que nos chegam da Ucrânia. É preciso ir
muito mais além. A Rússia tem que sentir na pele que a forma como tem gerido esta
“operação militar especial” não pode ficar impune. Bombardeamentos feitos à
distância não poupa escolas, hospitais, teatros, centros comerciais, mercearias,
com a desculpa de albergar estruturas militares são o pretexto para arrasar
cidades completas. Nem os civis indefesos são barbaramente assassinados. As atrocidades
praticadas em Boucha, a destruição do Teatro e de uma maternidade em Mariupol,
são provavelmente, a ponta do icebergue daquilo que os russos foram capazes de
fazer sobre populações indefesas. Porque perante a coragem e tenacidade dos
combatentes ucranianos, tiveram que retirar, apesar da diferença dos meios.
Por quanto mais tempo vamos ser “solidários”,
enviando para a Ucrânia umas roupas que já não usamos, recebendo alguns
refugiados, aplicando um pacote de sanções que deixam de fora, algo que garante
o pagamento do esforço de guerra russo. Mesmo o Conselho de Segurança das
Nações Unidas, cujo mandato é zelar pela manutenção da paz
e segurança internacional, estão de mãos atadas pelo estatuto de
excepção do direito de veto, concedidos dos membros permanentes, pouco ou nada
pode fazer.
Vamos continuar a estar ao lado do povo
ucraniano, desde que isso não afecte o nosso conforto e comodidade. Como dizia Gustave
Flaubert: “A fraternidade é uma das mais belas invenções da hipocrisia
social.”

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