António
Costa, goste-se ou não dele, há que reconhecer a sua grande habilidade política.
Habilidade essa que acredito, assenta em algumas circunstâncias: cresceu num
ambiente politicamente esclarecido, iniciou a sua actividade política aos 14
anos, e adquiriu muita experiência política quer como autarca, como governante
e como parlamentar. Por isso, não consigo perceber este aparente desastre que
foi o mecanismo de investigação consubstanciado no tão badalado inquérito de 36
perguntas.
A sensação de que fiquei quando
António Costa o apresentou durante a Moção de Censura do Chega, pareceu inventada
no momento, sem imaginar as suas consequências, e tentando envolver o
Presidente da República, num processo que é de responsabilidade exclusiva do
primeiro-ministro. Neste contexto, estranho esta aparente inabilidade de
António Costa, político matreiro, um excelente tribuno e um político muito
experiente.
António Costa também é conhecido
pelo critério na escolha dos seus directos colaboradores. Garante a sua
confiança política, contra tudo e contra todos, como foram os casos de Fernando
Cabrita, Constança Urbano de Sousa, e mesmo no caso de Paulo Pedrosos, envolto
em grande celeuma, e onde o chavão “à política o que é da política e à
justiça o que é da justiça” ¸ parece não ter sido o lema que António Costa,
adoptou mais recentemente, sobretudo depois do incómodo causado pelo “elefante
na sala” chamado José Sócrates.
Eu entendo que uma indigitação
para um cargo de responsabilidade governativa, deve assentar uma base de confiança
mútua, mas sobretudo, pela interferência a que as suas decisões têm na vida da
população, numa garantia de transparência do passado de uma vida impoluta desse
governante. Ora foi tudo isto que não aconteceu neste XXIII Governo. Muitos
foram os casos, casinhos e casões, a que António Costa não deu a devida
atenção, ou na lógica do nepotismo a que o PS nos habituou, já não consegue
arranjar mais ninguém que não sejam aqueles militantes a contas com a justiça, e
com manifesta incompetência para os cargos que assumiram.
Voltando ao famoso inquérito, a
tentativa de envolver o presidente da república, saiu furada a António Costa. Considerou
que o questionário de 36 perguntas a preencher por candidatos a governantes
protege a democracia e dão ao primeiro-ministro a desculpa de que se alguma
coisa correr mal, foi porque o escolhido mentiu. Para além disto, estende o âmbito
do questionário para aqueles que se encontram no exercício de funções, ao dizer:
“…é uma pura teoria aquela de que isto não se aplica aos que já estavam em
funções". Ou seja, neste momento António Costa encontra-se perante
uma eventualidade de ter de aplicar este mesmo critério a todo o seu executivo.
Assim sendo, há pelo menos um governante que teria de deixar funções – Paulo Cofôfo.
A apresentação deste mecanismo de
escrutínio da integridade ética, moral e cívica de futuros governantes não pode
ser uma forma de desresponsabilizar o primeiro-ministro. Antes, porém, a
garantia que a suspeição de qualquer irregularidade deve garantir ao cidadão
comum, que aquele governante, ser, ou não uma pessoa ética e moralmente
confiável para aquele cargo. Neste caso a inabilidade do primeiro-ministro para
gerir tantos casos em tão pouco tempo, levou-o, numa tentativa infrutífera de
envolver Marcelo Rebelo de Sousa nessa escolha. Ora Marcelo não é propriamente
um menino de coro, e como tal, deu a resposta adequada, devolvendo à
procedência e malfadado questionário. Costa ficou com o menino nos braços e,
para ser coerente (?!?), terá de o aplicar ao executivo em funções. O que ma
faz lembrar aquele ditado popular que diz "Ir à lã e sair tosquiado."

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