quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

ANTÓNIO COSTA FOI À LÃ E SAIU TOSQUIADO

 

António Costa, goste-se ou não dele, há que reconhecer a sua grande habilidade política. Habilidade essa que acredito, assenta em algumas circunstâncias: cresceu num ambiente politicamente esclarecido, iniciou a sua actividade política aos 14 anos, e adquiriu muita experiência política quer como autarca, como governante e como parlamentar. Por isso, não consigo perceber este aparente desastre que foi o mecanismo de investigação consubstanciado no tão badalado inquérito de 36 perguntas.

A sensação de que fiquei quando António Costa o apresentou durante a Moção de Censura do Chega, pareceu inventada no momento, sem imaginar as suas consequências, e tentando envolver o Presidente da República, num processo que é de responsabilidade exclusiva do primeiro-ministro. Neste contexto, estranho esta aparente inabilidade de António Costa, político matreiro, um excelente tribuno e um político muito experiente.

António Costa também é conhecido pelo critério na escolha dos seus directos colaboradores. Garante a sua confiança política, contra tudo e contra todos, como foram os casos de Fernando Cabrita, Constança Urbano de Sousa, e mesmo no caso de Paulo Pedrosos, envolto em grande celeuma, e onde o chavão “à política o que é da política e à justiça o que é da justiça” ¸ parece não ter sido o lema que António Costa, adoptou mais recentemente, sobretudo depois do incómodo causado pelo “elefante na sala” chamado José Sócrates.

Eu entendo que uma indigitação para um cargo de responsabilidade governativa, deve assentar uma base de confiança mútua, mas sobretudo, pela interferência a que as suas decisões têm na vida da população, numa garantia de transparência do passado de uma vida impoluta desse governante. Ora foi tudo isto que não aconteceu neste XXIII Governo. Muitos foram os casos, casinhos e casões, a que António Costa não deu a devida atenção, ou na lógica do nepotismo a que o PS nos habituou, já não consegue arranjar mais ninguém que não sejam aqueles militantes a contas com a justiça, e com manifesta incompetência para os cargos que assumiram.

Voltando ao famoso inquérito, a tentativa de envolver o presidente da república, saiu furada a António Costa. Considerou que o questionário de 36 perguntas a preencher por candidatos a governantes protege a democracia e dão ao primeiro-ministro a desculpa de que se alguma coisa correr mal, foi porque o escolhido mentiu. Para além disto, estende o âmbito do questionário para aqueles que se encontram no exercício de funções, ao dizer: “…é uma pura teoria aquela de que isto não se aplica aos que já estavam em funções". Ou seja, neste momento António Costa encontra-se perante uma eventualidade de ter de aplicar este mesmo critério a todo o seu executivo. Assim sendo, há pelo menos um governante que teria de deixar funções – Paulo Cofôfo.

A apresentação deste mecanismo de escrutínio da integridade ética, moral e cívica de futuros governantes não pode ser uma forma de desresponsabilizar o primeiro-ministro. Antes, porém, a garantia que a suspeição de qualquer irregularidade deve garantir ao cidadão comum, que aquele governante, ser, ou não uma pessoa ética e moralmente confiável para aquele cargo. Neste caso a inabilidade do primeiro-ministro para gerir tantos casos em tão pouco tempo, levou-o, numa tentativa infrutífera de envolver Marcelo Rebelo de Sousa nessa escolha. Ora Marcelo não é propriamente um menino de coro, e como tal, deu a resposta adequada, devolvendo à procedência e malfadado questionário. Costa ficou com o menino nos braços e, para ser coerente (?!?), terá de o aplicar ao executivo em funções. O que ma faz lembrar aquele ditado popular que diz "Ir à lã e sair tosquiado."

 

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