Pintura de Vitor
Lima Meireles
Assinala-se hoje um aniversário que eu nunca imaginei presenciar. Faz hoje
um ano que a Rússia invadiu um país livre, soberano e democrático. Três valores
que muito dizem a todo o mundo ocidental, por mais imperfeitos que alguns deles
possa ser. Para além de uma invasão bárbara e inesperada (Biden fartou-se de
avisar). A Rússia detinha, na altura, o segundo maior e mais bem equipado
exército do mundo. A Ucrânia, por sua vez, estava a ensaiar a sua recente
democracia, com muitos erros e imperfeições, mas detinha uma imprensa livre,
eleições democráticas e ansiava, à semelhança, dos seus vizinhos do Báltico,
fazer parte da NATO, vá-se lá saber porquê?
Sou um filho do pós II Guerra Mundial. Cresci a escutar os horrores que os
europeus viveram durante, e por causa desse conflito. Cresci a ver filmes da
chacina que foi o desembarque dos aliados na Normandia. As imagens dos
bombardeamentos de Londres, Dresden, Roterdão, Berlim, Hamburgo e tantas outras
cidades, ainda perpassam na nossa memória. A guerra do Pacífico não foi menos
terrível, tendo tido o seu epílogo no ataque a Hiroshima e Nagasaki, com o
recurso a armas nucleares. Após o armistício, as grandes potências mundiais
desenvolveram aquilo que podíamos chamar do equilíbrio do terror, com o
desenvolvimento das suas capacidades militares e atómicas, com o objectivo da
dissuasão, e a que se chamou a Guerra Fria. Dissuasão, porque, de cada lado da
“cerca” sabia que do outro lado havia capacidade de aniquilamento da outra.
Para o bem ou para o mal, esse equilíbrio permitiu à Europa viver em paz
durante mais de 60 anos. Foi numa perspectiva de defesa que o mundo livre,
criou a OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte, e a intenção de
Vlodomyr Zelenshi pretender aderir a EU e à OTAM, foi o seu pecado capital.
Foi esta preocupação de defesa colectiva que orientou os Estados-membros
que subscreveram o Tratado do Atlântico Norte, por oposição ao Pacto de
Varsóvia que incluía todos os países da extinta URSS. Os princípios da OTAN prevêem
a defesa mútua em resposta a um ataque por qualquer entidade externa à
organização. No caso da invasão da Ucrânia este princípio não se aplicava. Pese
embora o facto que ambas as partes estarem dispostas a se entenderem para uma
iminente adesão. Era, pois, a eventualidade da adesão da Ucrânia à OTAN o que
mais irritava Putin, um obscuro e ambiciosos ex-agente do KGB, que ia desenvolvendo
uma ambição de reverter o passado imperial do tempo dos Czares. Para tal, não
olha a meios para atingir o seu fim.
Em 2014 a Ucrânia é assolada por uma forte crise política que leva à
deposição do contestado presidente. A Crimeia, com uma maioria da população
russófona, opõe-se a estes eventos e reivindicam laços estreitos ou a
integração com a Rússia. A Rússia apoia este movimento e em pouco tempo invade
a Crimeia, perante a condenação dos Estados Unidos e dos seus aliados, mas
pouco mais. Talvez por isso, quando Putin começou a colocar tropas
junto da fronteira e apoiou os movimentos independentistas de duas províncias
ucranianas, os mesmos aliados não acreditaram nas intenções de Putin e nada
fizeram. A invasão, eufemisticamente chamada de “operação militar especial”,
tem lugar pouco depois.
A partir daí, o ocidente une-se no apoio à Ucrânia e desenvolve uma série
de iniciativas, com vista a dotar Kiev, dos meios necessários à sua defesa.
Simultaneamente propõe aos aliados que estabeleçam uma série alargada de
sanções sobre a Rússia. Esta atitude, revela uma grande hipocrisia do “mundo
livre” que se disponibiliza para fornecer ajuda militar à Ucrânia, mas apenas
para fins meramente defensivos. Ou seja, reconhece que a Ucrânia não tem, meios
para combater o invasor, em representação do tal “mundo livre”, mas não lhe
concede a capacidade de responder de igual forma (limita os misseis de longo
alcance, nega a capacidade meios aéreos, restringe o fornecimento dos célebres
Leopard até ao fim.
Passado um ano sobre o conflito, assistimos a um invasor que bombardeia com
mísseis de longo alcance, alvos e populações civis, e que não conseguiu,
perante a inaudita coragem dos ucranianos, atingir nenhum dos seus grandes
objectivos. Apesar da aparente condenação da invasão, os mistérios da
geopolítica e de uma nova ordem mundial, que ninguém sabe o que será, o
conflito continua, sem um previsível fim à vista. Depois de mais de 200.000
mortes de ambos os lados; um país devastado; uma população separada, o que é que
falta para que o mundo entenda que tem que ser forjado um meio para pôr fim a
esta barbárie?
Para todos aqueles que afirmavam que em 24 horas Putin e as suas tropas,
desfilaria nas rusas de Kiev, dada o enorme diferencial do potencial bélico e
de forças militares, entre as duas nações. Passados 12 meses observamos, que
apesar disto, os feitos dos ucranianos conseguiram repelir até agora as
intenções de Putin. De um lado vemos um país unido á volta do seu líder,
disposto a lutar até ao fim das suas capacidades, e a vender cara a derrota. Do
outro lado verificamos um exército desmotivado, mal equipado, sem um propósito
credível, abandonado e uma sucessão de mexidas na sua hierarquia, e com uma
considerável perda de equipamento!
Não podia terminar este meu desabafo sem enaltecer a coragem deste povo
sofredor, que prefere morrer a ser pisado pela estalinista bota cardada de
Putin. Por isto, e porque acredito que também eles estão a lutar por mim, pelos
meus e pelos valores que eu defendo, quero terminar enaltecendo toda a
determinação daquele povo. SLAVA UKRAINE.

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