quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

SLAVA UKRAINE – UM ANIVERSÁRIO A NÃO ESQUECER

Pintura de Vitor Lima Meireles

Assinala-se hoje um aniversário que eu nunca imaginei presenciar. Faz hoje um ano que a Rússia invadiu um país livre, soberano e democrático. Três valores que muito dizem a todo o mundo ocidental, por mais imperfeitos que alguns deles possa ser. Para além de uma invasão bárbara e inesperada (Biden fartou-se de avisar). A Rússia detinha, na altura, o segundo maior e mais bem equipado exército do mundo. A Ucrânia, por sua vez, estava a ensaiar a sua recente democracia, com muitos erros e imperfeições, mas detinha uma imprensa livre, eleições democráticas e ansiava, à semelhança, dos seus vizinhos do Báltico, fazer parte da NATO, vá-se lá saber porquê?

Sou um filho do pós II Guerra Mundial. Cresci a escutar os horrores que os europeus viveram durante, e por causa desse conflito. Cresci a ver filmes da chacina que foi o desembarque dos aliados na Normandia. As imagens dos bombardeamentos de Londres, Dresden, Roterdão, Berlim, Hamburgo e tantas outras cidades, ainda perpassam na nossa memória. A guerra do Pacífico não foi menos terrível, tendo tido o seu epílogo no ataque a Hiroshima e Nagasaki, com o recurso a armas nucleares. Após o armistício, as grandes potências mundiais desenvolveram aquilo que podíamos chamar do equilíbrio do terror, com o desenvolvimento das suas capacidades militares e atómicas, com o objectivo da dissuasão, e a que se chamou a Guerra Fria. Dissuasão, porque, de cada lado da “cerca” sabia que do outro lado havia capacidade de aniquilamento da outra. Para o bem ou para o mal, esse equilíbrio permitiu à Europa viver em paz durante mais de 60 anos. Foi numa perspectiva de defesa que o mundo livre, criou a OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte, e a intenção de Vlodomyr Zelenshi pretender aderir a EU e à OTAM, foi o seu pecado capital.

Foi esta preocupação de defesa colectiva que orientou os Estados-membros que subscreveram o Tratado do Atlântico Norte, por oposição ao Pacto de Varsóvia que incluía todos os países da extinta URSS. Os princípios da OTAN prevêem a defesa mútua em resposta a um ataque por qualquer entidade externa à organização. No caso da invasão da Ucrânia este princípio não se aplicava. Pese embora o facto que ambas as partes estarem dispostas a se entenderem para uma iminente adesão. Era, pois, a eventualidade da adesão da Ucrânia à OTAN o que mais irritava Putin, um obscuro e ambiciosos ex-agente do KGB, que ia desenvolvendo uma ambição de reverter o passado imperial do tempo dos Czares. Para tal, não olha a meios para atingir o seu fim.

Em 2014 a Ucrânia é assolada por uma forte crise política que leva à deposição do contestado presidente. A Crimeia, com uma maioria da população russófona, opõe-se a estes eventos e reivindicam laços estreitos ou a integração com a Rússia. A Rússia apoia este movimento e em pouco tempo invade a Crimeia, perante a condenação dos Estados Unidos e dos seus aliados, mas pouco mais.  Talvez por isso, quando Putin começou a colocar tropas junto da fronteira e apoiou os movimentos independentistas de duas províncias ucranianas, os mesmos aliados não acreditaram nas intenções de Putin e nada fizeram. A invasão, eufemisticamente chamada de “operação militar especial”, tem lugar pouco depois.

A partir daí, o ocidente une-se no apoio à Ucrânia e desenvolve uma série de iniciativas, com vista a dotar Kiev, dos meios necessários à sua defesa. Simultaneamente propõe aos aliados que estabeleçam uma série alargada de sanções sobre a Rússia. Esta atitude, revela uma grande hipocrisia do “mundo livre” que se disponibiliza para fornecer ajuda militar à Ucrânia, mas apenas para fins meramente defensivos. Ou seja, reconhece que a Ucrânia não tem, meios para combater o invasor, em representação do tal “mundo livre”, mas não lhe concede a capacidade de responder de igual forma (limita os misseis de longo alcance, nega a capacidade meios aéreos, restringe o fornecimento dos célebres Leopard até ao fim.

Passado um ano sobre o conflito, assistimos a um invasor que bombardeia com mísseis de longo alcance, alvos e populações civis, e que não conseguiu, perante a inaudita coragem dos ucranianos, atingir nenhum dos seus grandes objectivos. Apesar da aparente condenação da invasão, os mistérios da geopolítica e de uma nova ordem mundial, que ninguém sabe o que será, o conflito continua, sem um previsível fim à vista. Depois de mais de 200.000 mortes de ambos os lados; um país devastado; uma população separada, o que é que falta para que o mundo entenda que tem que ser forjado um meio para pôr fim a esta barbárie?

Para todos aqueles que afirmavam que em 24 horas Putin e as suas tropas, desfilaria nas rusas de Kiev, dada o enorme diferencial do potencial bélico e de forças militares, entre as duas nações. Passados 12 meses observamos, que apesar disto, os feitos dos ucranianos conseguiram repelir até agora as intenções de Putin. De um lado vemos um país unido á volta do seu líder, disposto a lutar até ao fim das suas capacidades, e a vender cara a derrota. Do outro lado verificamos um exército desmotivado, mal equipado, sem um propósito credível, abandonado e uma sucessão de mexidas na sua hierarquia, e com uma considerável perda de equipamento! 

Não podia terminar este meu desabafo sem enaltecer a coragem deste povo sofredor, que prefere morrer a ser pisado pela estalinista bota cardada de Putin. Por isto, e porque acredito que também eles estão a lutar por mim, pelos meus e pelos valores que eu defendo, quero terminar enaltecendo toda a determinação daquele povo. SLAVA UKRAINE.


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