terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

A INOCÊNCIA DA "GAFE" DE GOMES CRAVINHO

Durante toda a passada semana, discutiu-se de uma forma muito acalorada, a decisão do ministro dos negócios estrangeiros, Gomes Cravinho, no convite ao recém-eleito, presidente do Brasil, Lula da Silva, para discursar no Parlamento, durante a sessão solene das comemorações do 25 de Abril. Objectivamente ultrapassando as suas competências, e criando um imbróglio diplomático quase irreparável. Ou seja, ignorou (?) e usurpou com alguma ingenuidade (?), uma competência que pertence exclusivamente ao Parlamento e, não respeitando assim, a separação de poderes que deve existir entre órgãos de soberania. Ninguém acredita que o ministro tenha feito o dito convite sem o conhecimento do primeiro-ministro. Como também ninguém acredita que António Costa, não soubesse que aquele convite, feito naquelas condições, constituía uma competência da Assembleia da República. Assim sendo, questiona-se porque é que o convite não partiu da liderança parlamentar do próprio PS? Claro que ninguém pode na verdade saber os verdadeiros motivos que estiveram na origem daquele convite. Mas não podemos ser tão ingénuos para acreditar, que tudo foi uma iniciativa exclusiva do ministro Gomes Cravinho, e que a gafe aconteceu por puro desconhecimento, ou inabilidade política. Lula da Silva é o presidente de um país irmão, recentemente reeleito e que vai iniciar um périplo europeu começando no nosso país. Independentemente dos anticorpos que a sua presença desperta em muitas forças políticas nacionais, pelo seu passado judicial, não invalida que ele não pudesse ser recebido e discursado no Parlamento nacional. Quanto ao discursar na sessão solene de comemoração do 25 de Abril, era lógico que iria desencadear uma série de incómodos a todos aqueles que entendem que se trata de um acontecimento muito nosso, e que a sua presença, e nos moldes em que foi feito, iria causar uma enorme polémica. Então se existem tanto desconforto, qual ou quais as razões que estariam por detrás desta “gafe”, que não parece ter sido fruto do acaso? Quando o propósito não é muito claro, abre-se a porta à especulação. E é isso que podemos fazer por agora - especular. Podemos especular que tudo isto não passa de uma manobra do PS, para desviar as atenções dos enormes e graves problemas com que se debate(a especulação, os casos e casinhos, a eventualidade de Medina poder vir a ser constituído arguido, a onda de greves, o caos no SNS, o buraco da TAP, etc.) que o país atravessa. Mas o convite a Lula da Silva, penso ter uma finalidade bem mais elaborada. Como sabemos Lula da Silva foi condenado, pese embora as condições, num processo por corrupção e, apesar disso, ter sido agora reeleito. Sabendo-se da boa relação que Lula da Silva sempre estabeleceu com José Sócrates, a sua vinda e o convite, resolviam duas situações: por um lado garantia que, de alguma forma se branqueasse a memória e o incómodo que a sua governação sempre causou no interior do PS; e por outro, as sondagens que têm revelado um enfraquecimento do eleitorado que vota PS, transferindo para a direita as suas intenções de voto, poderiam, por via disto, alterar-se. Assim mantinha-se os portugueses e os parlamentares entretidos com mais uma “gafe”, que qualquer um entende que tinha tudo para despertar um estremar de posições; dava-se os ingredientes que o Chega tanto gosta, e assim, atacava-se indirectamente o PSD, pela semelhança de posições a respeito da dita “gafe”. Até o nosso presidente da república, sempre pressuroso a dar a sua opinião, limita-se a assobiar para o lado. Alguém disse: “Na política, existem apenas duas coisas imutáveis: a ingenuidade dos eleitores e a desonestidade dos políticos”, e que a mim, me parece encaixar-se aqui na perfeição.

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