Quando Carlos Moedas resolveu
tomar a iniciativa de festejar este ano, em paridade com os 50 anos do 25 de
Abril, o 25 de Novembro, logo se levantaram as vozes habituais a associar estes
festejos como uma celebração de uma direita saudosista dos tempos da outra senhora.
Este pressuposto fez-me recordar
os tempos tumultuosos que se viveram no Verão quente de 1975. Era eu um jovem
que me iniciava na minha vida profissional, enquanto tentava perceber o que se
passava com o chamado PREC – Processo Revolucionário em Curso que, teimava em
fazer parte das nossas vidas por muito que não gostássemos daquilo que víamos.
Tinha rejubilado na recepção aos valentes soldados que saíram de Santarém na
madrugada do 25 de Abril, comandados pelo Capitão Salgueiro Maia, com quem
tinha tido o privilégio de prestar serviço militar na extinta EPC. Este acontecimento
representava a esperança num país mais consentâneo com os valores de uma europa
que tinha tido a oportunidade de conhecer recentemente.
Nesta altura tinha
responsabilidades numa quinta, em Almoster, nos arredores de Santarém, que
tinha como objectivo fornecer reprodutores seleccionados para uma Cadeia de Integração
em suinicultura, recentemente criada. A empresa detinha, para além disto, escritórios
técnicos no Cartaxo, para onde tinha de reportar a minha actividade
frequentemente. Os pouco mais de 8 km que separavam as duas localidades, por
aquela altura constituía um doloroso alvário. Logo à saída da tal quinta era
parado por um grupo de indivíduos, conectados e identificados com o PCP,
empunhando barras e correntes de ferro, que nos obrigavam a parar e sujeitar a uma
revista da viatura. Se manifestávamos algum desconforto, eramos imediatamente invectivados
de fascista, como mínimo. A cena repetia-se, invariavelmente, mais três vezes
(cruzamento de Almoster, entrada do Cartaxo e no centro do Cartaxo). Mesmo
quando referíamos que já nos tínhamos sujeitado a uma revista há poucos minutos,
invariavelmente perguntavam se tínhamos algo a esconder… Este tipo de situações
repetiam-se um pouco por todo o lado.
Na mesma altura ocorriam as
ocupações de propriedades agrícolas vizinhas, e todos os dias quando
iniciávamos mais um de trabalho, um desfecho deste tipo constituía uma
incerteza e uma preocupação. Esta incerteza era vivida por todos os
trabalhadores que nos questionavam o que poderíamos fazer, caso tal viesse a acontecer,
por forma a garantirem a continuidade dos seus postos de trabalho.
Mas não quero abordar este
assunto por uma perspectiva meramente pessoal. O país vivia tempos muito
conturbados com: um cerco à Assembleia da República, grande instabilidade no
seio das Forças Armadas com a sublevação das tropas paraquedistas; tiros junto
do RALIS, ocupação dos estúdios da RTP; saneamento de várias direcções de
órgãos de comunicação social, Otelo Saraiva de Carvalho queria meter os
portugueses no Campo Pequeno, depois de ter distribuiu alguns milhares de espingardas metralhadoras G-3 a alguns amigos, etc.
Naturalmente que por esta altura
vivíamos sob o domínio de um Conselho da Revolução, objectivamente constituído
por militares conectados com o PCP, e que tinham uma visão marxista para o futuro
do país. Eram muitos os que discordavam do rumo que o país estava a levar,
entre os quais eu me incluo. Recordo o corajoso discurso da Fonte Luminosa
proferido por Mário Soares nas comemorações do 1º de Maio, e que representou um
ponto de viragem nas consciências de muitos portugueses, que não gostavam do
que viam e viviam. É natural que este descontentamento tenha sido aproveitado por
muita gente de direita, mas uma coisa é certa, o verdadeiro processo democrático
só se consolidou depois do 25 de Novembro.
Nesta altura que vejo tanta gente
irritada com a comemoração da data, gostaria que me respondessem a uma simples
pergunta: que país teríamos se não tivesse havido o 25 de Novembro?
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