sábado, 7 de outubro de 2023

O 25 de ABRIL E O 25 DE NOVEMBRO

 

Quando Carlos Moedas resolveu tomar a iniciativa de festejar este ano, em paridade com os 50 anos do 25 de Abril, o 25 de Novembro, logo se levantaram as vozes habituais a associar estes festejos como uma celebração de uma direita saudosista dos tempos da outra senhora.

Este pressuposto fez-me recordar os tempos tumultuosos que se viveram no Verão quente de 1975. Era eu um jovem que me iniciava na minha vida profissional, enquanto tentava perceber o que se passava com o chamado PREC – Processo Revolucionário em Curso que, teimava em fazer parte das nossas vidas por muito que não gostássemos daquilo que víamos. Tinha rejubilado na recepção aos valentes soldados que saíram de Santarém na madrugada do 25 de Abril, comandados pelo Capitão Salgueiro Maia, com quem tinha tido o privilégio de prestar serviço militar na extinta EPC. Este acontecimento representava a esperança num país mais consentâneo com os valores de uma europa que tinha tido a oportunidade de conhecer recentemente.

Nesta altura tinha responsabilidades numa quinta, em Almoster, nos arredores de Santarém, que tinha como objectivo fornecer reprodutores seleccionados para uma Cadeia de Integração em suinicultura, recentemente criada. A empresa detinha, para além disto, escritórios técnicos no Cartaxo, para onde tinha de reportar a minha actividade frequentemente. Os pouco mais de 8 km que separavam as duas localidades, por aquela altura constituía um doloroso alvário. Logo à saída da tal quinta era parado por um grupo de indivíduos, conectados e identificados com o PCP, empunhando barras e correntes de ferro, que nos obrigavam a parar e sujeitar a uma revista da viatura. Se manifestávamos algum desconforto, eramos imediatamente invectivados de fascista, como mínimo. A cena repetia-se, invariavelmente, mais três vezes (cruzamento de Almoster, entrada do Cartaxo e no centro do Cartaxo). Mesmo quando referíamos que já nos tínhamos sujeitado a uma revista há poucos minutos, invariavelmente perguntavam se tínhamos algo a esconder… Este tipo de situações repetiam-se um pouco por todo o lado.

Na mesma altura ocorriam as ocupações de propriedades agrícolas vizinhas, e todos os dias quando iniciávamos mais um de trabalho, um desfecho deste tipo constituía uma incerteza e uma preocupação. Esta incerteza era vivida por todos os trabalhadores que nos questionavam o que poderíamos fazer, caso tal viesse a acontecer, por forma a garantirem a continuidade dos seus postos de trabalho.

Mas não quero abordar este assunto por uma perspectiva meramente pessoal. O país vivia tempos muito conturbados com: um cerco à Assembleia da República, grande instabilidade no seio das Forças Armadas com a sublevação das tropas paraquedistas; tiros junto do RALIS, ocupação dos estúdios da RTP; saneamento de várias direcções de órgãos de comunicação social, Otelo Saraiva de Carvalho queria meter os portugueses no Campo Pequeno, depois de ter distribuiu alguns milhares de espingardas metralhadoras G-3 a alguns amigos, etc.

Naturalmente que por esta altura vivíamos sob o domínio de um Conselho da Revolução, objectivamente constituído por militares conectados com o PCP, e que tinham uma visão marxista para o futuro do país. Eram muitos os que discordavam do rumo que o país estava a levar, entre os quais eu me incluo. Recordo o corajoso discurso da Fonte Luminosa proferido por Mário Soares nas comemorações do 1º de Maio, e que representou um ponto de viragem nas consciências de muitos portugueses, que não gostavam do que viam e viviam. É natural que este descontentamento tenha sido aproveitado por muita gente de direita, mas uma coisa é certa, o verdadeiro processo democrático só se consolidou depois do 25 de Novembro.

Nesta altura que vejo tanta gente irritada com a comemoração da data, gostaria que me respondessem a uma simples pergunta: que país teríamos se não tivesse havido o 25 de Novembro?

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