Fui um detractor confesso da
gestão do SNS pela antiga ministra Marta Temido, por duas ordens de razões:
geriu o ministério com base em critérios de ordem ideológica, e o sucesso no
controlo da Pandemia, cabe inteirinha aos profissionais de saúde, e não ao
papel de uma ministra que se limitou a cumprir as ordens emanadas da OMS –
Organização Mundial da Saúde. Ou seja, Marta Temido teve apenas um papel de
decisor político, enquanto os seus secretários de estado Graça Freitas e depois
Lacerda Sales, tiveram a tarefa de implementar no terreno a gestão dos meios
necessários para enfrentar os enormes desafios que se levantaram perante um
flagelo que completamente desconhecido.
Se Graça Freitas sofreu o primeiro
embate, foram-lhe desculpadas algumas hesitações e lacunas perfeitamente
compreensíveis. Já Lacerda Sales mostrou-se um político calmo, ponderado,
conhecedor dos meandros da complexa máquina do SNS. Mesmo na presidência da Comissão
de Inquérito Parlamentar à TAP, actuou sempre com grande elevação, independência,
fazendo passar a ideia de alguém com tacto diplomático, para garantir que todas
as forças presentes pudessem defender os seus pontos de vista de forma livre e
independente. De recordar que os principais visados pertenciam ao seu partido.
O caso das gémeas, já todos nós
percebemos – uma cunha monumental que teve origem na Presidência da República. Convém
recordar as palavras do secretário de estado Hugo Mendes, na mensagem enviada à
CEO um pedido porque queria agradar a Marcelo Rebelo de Sousa, descrito como "o
nosso maior aliado político", para perceber se este caso não se
reveste de contornos similares.
Considerando que as autoridades
estão a investigar este assunto, não me parece que esta Comissão Parlamentar faça
algum sentido. De qualquer forma ela aqui está. A forma como Lacerda Sales se
apresentou a este escrutínio, deixou a muito gente a sensação que, ao invocar a
sua situação de arguido, e como tal remeter-se ao silêncio para não se
incriminar, será uma forma de não desagradar ao Presidente da República. Não
faço a mínima ideia se Lacerda Sales é culpado ou inocente, mas fazer silêncio
sobre tudo aquilo em que ele está directamente envolvido, e só falar sobre
terceiros, não lhe ficou bem. Teve o cuidado de dizer que não foi contactado nem
Marcelo Rebelo de Sousa, nem António Costa e Marta Temido, como já era de
esperar.
Eu tinha a convicção de que
Lacerda Sales era uma pessoa digna e integra e esperava que tivesse ter um
comportamento linear, doesse a quem doesse. Dito de outra forma, Lacerda Sales
não consegue negar a existência de uma cunha monumental e só lhe ficava bem: ou
manter o silêncio em tudo o que lhe fosse perguntado, ou falar sobre tudo o que
não estivesse sob segredo de Justiça. A forma como ele “chutou” a marcação da
consulta para a secretário, não lhe ficou bem. Optou por falar pouco e de forma
inócua, e remeter-se ao silêncio “para não me incriminar”. Só temos uma desilusão quando criamos
alguma ilusão. O caso de Lacerda Sales é um bom exemplo disto, pelo menos na
forma como eu entendi a sua prestação na Comissão Parlamentar de Inquérito.

Bem escrito o n/ pensamento comum. Vamo-nos habituando a não confiar nos chefes, k "chutam" s/ pudor p/ quem cumpre !?!
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