terça-feira, 18 de junho de 2024

LACERDA SALES UMA DESILUSÃO

 

Fui um detractor confesso da gestão do SNS pela antiga ministra Marta Temido, por duas ordens de razões: geriu o ministério com base em critérios de ordem ideológica, e o sucesso no controlo da Pandemia, cabe inteirinha aos profissionais de saúde, e não ao papel de uma ministra que se limitou a cumprir as ordens emanadas da OMS – Organização Mundial da Saúde. Ou seja, Marta Temido teve apenas um papel de decisor político, enquanto os seus secretários de estado Graça Freitas e depois Lacerda Sales, tiveram a tarefa de implementar no terreno a gestão dos meios necessários para enfrentar os enormes desafios que se levantaram perante um flagelo que completamente desconhecido.

Se Graça Freitas sofreu o primeiro embate, foram-lhe desculpadas algumas hesitações e lacunas perfeitamente compreensíveis. Já Lacerda Sales mostrou-se um político calmo, ponderado, conhecedor dos meandros da complexa máquina do SNS. Mesmo na presidência da Comissão de Inquérito Parlamentar à TAP, actuou sempre com grande elevação, independência, fazendo passar a ideia de alguém com tacto diplomático, para garantir que todas as forças presentes pudessem defender os seus pontos de vista de forma livre e independente. De recordar que os principais visados pertenciam ao seu partido.

O caso das gémeas, já todos nós percebemos – uma cunha monumental que teve origem na Presidência da República. Convém recordar as palavras do secretário de estado Hugo Mendes, na mensagem enviada à CEO um pedido porque queria agradar a Marcelo Rebelo de Sousa, descrito como "o nosso maior aliado político", para perceber se este caso não se reveste de contornos similares.

Considerando que as autoridades estão a investigar este assunto, não me parece que esta Comissão Parlamentar faça algum sentido. De qualquer forma ela aqui está. A forma como Lacerda Sales se apresentou a este escrutínio, deixou a muito gente a sensação que, ao invocar a sua situação de arguido, e como tal remeter-se ao silêncio para não se incriminar, será uma forma de não desagradar ao Presidente da República. Não faço a mínima ideia se Lacerda Sales é culpado ou inocente, mas fazer silêncio sobre tudo aquilo em que ele está directamente envolvido, e só falar sobre terceiros, não lhe ficou bem. Teve o cuidado de dizer que não foi contactado nem Marcelo Rebelo de Sousa, nem António Costa e Marta Temido, como já era de esperar.

Eu tinha a convicção de que Lacerda Sales era uma pessoa digna e integra e esperava que tivesse ter um comportamento linear, doesse a quem doesse. Dito de outra forma, Lacerda Sales não consegue negar a existência de uma cunha monumental e só lhe ficava bem: ou manter o silêncio em tudo o que lhe fosse perguntado, ou falar sobre tudo o que não estivesse sob segredo de Justiça. A forma como ele “chutou” a marcação da consulta para a secretário, não lhe ficou bem. Optou por falar pouco e de forma inócua, e remeter-se ao silêncio “para não me incriminar”.  Só temos uma desilusão quando criamos alguma ilusão. O caso de Lacerda Sales é um bom exemplo disto, pelo menos na forma como eu entendi a sua prestação na Comissão Parlamentar de Inquérito.

1 comentário:

  1. Bem escrito o n/ pensamento comum. Vamo-nos habituando a não confiar nos chefes, k "chutam" s/ pudor p/ quem cumpre !?!

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