O projecto que consistiu em
desenhar três figuras geométricas, com as cores da bandeira nacional, custou
76.500 €.
Recordo-me de na altura ter
discutido esta decisão com um amigo “intelectual”, que perante a minha discordância
só não me chamou de cavalgadura por delicadeza ou elegância.
A simbologia visual tem, entre
muitas outras objectivos: encerrar uma mensagem, transmitir uma ideia,
congregar um grupo, ter uma pretensão identitária, etc. É exactamente isto que
uma bandeira pretende atingir. É o caso dos estandartes militares, dos brasões
de família, dos brasões de organismos públicos (municípios, freguesias, clubes,
associações, etc.). Um logotipo deve, no meu modesto entender, repontar objectivos semelhantes, apesar de uma natural e compreensível simplificação. Isso não significa, de modo algum, que essa
simplificação seja reduzida a uma tão básica solução geométrica.
Em tudo isto, o que mais me
aborrece são as os objectivos enunciados para a encomenda: tornar a imagem
mais “inclusiva, plural e laica”. Inclusiva de quê? Quanto à
pluralidade, não consigo vislumbrar a “singularidade” do anterior símbolo. E
quanto à laicidade, acaso ela não está garantida no texto constitucional? Já
para não falar em questões de ordem estética, pela sua subjectividade e por
representarem uma escolha pessoal.
Desta vez, a simplificação
atingiu o nosso poeta maior – Luís de Camões. No ano em que se comemoram os 500
anos do seu nascimento, a Casa da Moeda (numa encomenda do Banco de Portugal),
resolveu parir este autêntico aborto. Com um desenho minimalista, da autoria do
artista alcobacense, José Aurélio, mostra o autor de ‘Os Lusíadas’ sem boca e
sem nariz. Os olhos mal se percebem.
É caso para dizer, pior era impossível. O mau-gosto, apesar de subjectividade que o termo engloba, atinge aqui o seu máximo expoente. Não merecíamos tanto, e o poeta muito menos.
Será que estamos perante uma nova
forma de reconhecer o belo, de representar a nossa história e os nossos
maiores? Neste caso o Caderno de Encargos também dava indicações precisas ao
artista?


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