segunda-feira, 10 de junho de 2024

DO SÍMBOLO DO GOVERNO DA REPÚBLICA À CARA DO CAMÕES


Todos nos lembramos de quando António Costa encomendou ao conceituado "Styudio Eduardo Alves", liderado pelo Professor Eduardo Alves, uma alteração aos símbolos da República, de modo a torná-los mais "amigos" do digital. Segundo o Caderno de Encargos deste projecto: "É um símbolo novo e distinto, representativo do Governo da República Portuguesa, que responde de forma mais eficaz aos novos contextos, determinados pela sofisticação da comunicação digital dinâmica e por uma consciência ecológica reforçada”

O projecto que consistiu em desenhar três figuras geométricas, com as cores da bandeira nacional, custou 76.500 €.

Recordo-me de na altura ter discutido esta decisão com um amigo “intelectual”, que perante a minha discordância só não me chamou de cavalgadura por delicadeza ou elegância.

A simbologia visual tem, entre muitas outras objectivos: encerrar uma mensagem, transmitir uma ideia, congregar um grupo, ter uma pretensão identitária, etc. É exactamente isto que uma bandeira pretende atingir. É o caso dos estandartes militares, dos brasões de família, dos brasões de organismos públicos (municípios, freguesias, clubes, associações, etc.). Um logotipo deve, no meu modesto entender, repontar objectivos semelhantes, apesar de uma natural e compreensível simplificação.  Isso não significa, de modo algum, que essa simplificação seja reduzida a uma tão básica solução geométrica.

Em tudo isto, o que mais me aborrece são as os objectivos enunciados para a encomenda: tornar a imagem mais “inclusiva, plural e laica”. Inclusiva de quê? Quanto à pluralidade, não consigo vislumbrar a “singularidade” do anterior símbolo. E quanto à laicidade, acaso ela não está garantida no texto constitucional? Já para não falar em questões de ordem estética, pela sua subjectividade e por representarem uma escolha pessoal.

Desta vez, a simplificação atingiu o nosso poeta maior – Luís de Camões. No ano em que se comemoram os 500 anos do seu nascimento, a Casa da Moeda (numa encomenda do Banco de Portugal), resolveu parir este autêntico aborto. Com um desenho minimalista, da autoria do artista alcobacense, José Aurélio, mostra o autor de ‘Os Lusíadas’ sem boca e sem nariz. Os olhos mal se percebem. 

É caso para dizer, pior era impossível. O mau-gosto, apesar de subjectividade que o termo engloba, atinge aqui o seu máximo expoente. Não merecíamos tanto, e o poeta muito menos.

Será que estamos perante uma nova forma de reconhecer o belo, de representar a nossa história e os nossos maiores? Neste caso o Caderno de Encargos também dava indicações precisas ao artista?

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