segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

O PAQUETE CARVALHO ARAÚJO E O HERÓI QUE LHE DEU O NOME

 

As viagens entre as ilhas e o continente, em meados da década de sessenta do século passado, era um privilégio de muitos poucos. A generalidade dos açorianos, não tinha por hábito viajar, e mesmo aqueles por necessidade, ou para estudarem usavam o transporte marítimo como o meio de o fazer. Já existiam ligações aéreas, centralizadas na ilha de Santa Maria, mas estas estavam apenas ao alcance dos mais abastados.

A minha primeira viagem quando parti para estudar, fi-la no paquete Carvalho Araújo, e esta primeira viagem marítima, revelou-se uma verdadeira aventura. Era um mundo novo que se abria e totalmente diferente daquilo a que estava habituado: a primeira separação da família, a primeira viagem e a primeira vez que me via independente do conforto familiar.

O navio de passageiros e carga "Carvalho Araújo", da Empresa Insulana de Navegação. Lançado à água em 1929, dos estaleiros Cantiere Navale Trestino, destinava-se a ligar Lisboa e os arquipélagos dos Açores e Madeira. Propulsionado a vapor, tinha 113 metros de comprimentos e deslocava 4560 toneladas, transportando 256 passageiros. Navegou entre 1930 e 1970[1]. A primeira impressão foi de uma profunda admiração pelo interior e do ambiente que se respirava no navio. O seu interior revelava um gosto clássico, com o recurso a madeiras nobres num estilo austero, mas mesmo assim muito agradável. A vida a bordo cumpria um ritual entre as refeições, as simulações de emergência, o convívio com colegas de outras ilhas, e os passeios no convés para aliviar o desconforto dos enjoos.

Uma coisa que desde o primeiro momento despertou a minha curiosidade, era associar a personagem que deu o nome ao navio. Na altura, lembro de ter ouvido tratar-se de um oficial da marinha que se distinguiu por actos de bravura. Só muito mais tarde consegui saber um pouco mais sobre este notável marinheiro. Sabe-se que nasceu por acidente na cidade do Porto, com ascendência da nobreza nortenha, e que se notabilizou pela sua coragem num episódio registado em pleno oceano, durante a I Guerra Mundial.


Nessa altura, José Botelho de Carvalho Araújo, com apenas 37 anos, ao comando do caça-minas Augusto Castilho[2], tinha por missão a protecção de navios que serviam os Açores e a Madeira. No dia 14 de Outubro de 1918, acompanhava o navio de passageiros São Miguel, entre o Funchal e Ponta Delgada, quando surgiu o submarino alemão “U 139”, que atacou brutalmente o São Miguel. Num assomo de valentia, Carvalho Araújo interpôs o navio sobre o seu comando entre o submarino e o São Miguel. Foi um combate desigual entre o gigante alemão e o navio português. Carvalho Araújo sucumbiu ao comando do seu navio, ficando para sempre registada a sua heroicidade, pois pouco antes de falecer mandou içar a bandeira nacional, afirmando “Hei-de morrer como português!”

A família Bensaúde, proprietária da Empresa Insulana de Navegação, num processo de renovação da sua frota, não hesitou em dar o nome deste bravo marinheiro ao navio, como forma de honrar alguém que salvou um navio da empresa, e os 200 passageiros que transportava.

 



[1] Referência recolhida do Instituto Cultural de Ponta Delgada

[2] “Augusto de Castilho”, um antigo arrastão de pesca, transformado em caça-minas Blog Pico da Vigia

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