quarta-feira, 19 de junho de 2019

A propósito da amnésia de Vítor Constâncio


A imagem de Vítor Constâncio esteve sempre associados valores de competência, seriedade e respeitabilidade. Não pretendo fazer nenhum processo de intenções, relativamente a alguém que apenas conheço pela sua exposição pública, quer enquanto político e banqueiro. Nas funções públicas que desempenhou fê-lo com toda a legitimidade. Por escolha ou eleição, acredito que tenha tentado fazer e dar o seu melhor. SE o conseguiu, tenho as minhas dúvias.
A sua exposição recente, sobretudo, pelos seus depoimentos nas Comissões Parlamentares de Inquérito, deixam transparecer, muito nervosismo, incoerência, mas predominantemente, uma incompreensível e preocupante falta de memória, para alguém que tinha, ou devia ter a responsabilidade de supervisão sobre um sector vital numa sociedade moderna. Tanto mais preocupante pela dimensão dos problemas em análise! A sua inabilidade em explicar tantas incongruências e faltas de memória são gritantes. A sua argumentação é que aquele  tipo de negócio era habitual na banca comercial, que não podia intervir, mesmo quando objectivamente havia violação de regras e normas da supervisão. Naturalmente que existe muita coisa por esclarecer e explicar de todos os envolvidos nos processos em questão. Enquanto não houverem factos provados, temos de presumir a inocência de todos os envolvidos.
Mas existem dados factuais, para os quais a nossa perplexidade nos faz questionar, se não teria sido possível fazer mais e melhor. Foi na vigência do Dr. Victor Constância como governador do Banco de Portugal (na sombra dos governos de José Sócrates), que tiveram lugar casos como: o BPN. O Banco Espírito Santo, O Banif, CGD e Fundação Berardo. Estes casos levaram o país e os contribuintes, para não deixar cair o sistema bancário(?), a injectar muitos milhões de euros. Nas suas afirmações públicas e junto a comissão e inquérito, refugia-se na sua amnésia, para justificar o seu desconhecimento do que se passava e, quando deles tinha conhecimento, não podia actuar porque a lei não o permitia.
Esta atitude de total desresponsabilização, pudor, de ética e de deontologia, pode desculpá-lo perante a lei e o Parlamento mas, deixa-nos a todos que tivemos de contribuir para os desmandos dos banqueiros e da supervisão falhada, com uma sensação incómoda, de que a uns se desculpa tudo e a outros, por pequenos delitos praticados, a justiça é implacável.
Mesmo assim e, talvez por “mérito” à frente dos destinos do Banco de Portugal, oferecem-lhe um elevadíssimo cargo, no BCE, como recompensa pelos elevados benefícios que trouxe ao país!
É por tudo isto que não posso calar a minha indignação.

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