Longe vai o ano que me trouxe a
Santarém pela primeira vez. Foi também nessa altura que me encantei por uma
cidade que irradiava um saudável espírito académico. As ruas pejavam e jovens
que, de forma civilizada manifestavam uma consciente irreverência, num contido
espírito libertário, muito própria daqueles idos de sessenta.
Santarém era uma cidade alegre, aberta,
receptiva e apetitosa. O bom acolhimento que as pessoas dispensavam aos
forasteiros eram motivos, mais o que suficientes, para aprendermos a amar a cidade
e as suas gentes, por nos sentirmos bem-vindos. Costumo dizer aos meus amigos,
que adoptei a cidade, mas ela também me adoptou. Ao longo estes mais e 50 anos
e vivência nesta cidade, sempre senti que fazia parte dela e, naturalmente, sofro
com as suas dificuldades e regozijo com as suas conquistas.
Nessa altura, a principal
actividade da região – a agricultura, emprestava à cidade uma dinâmica de
desenvolvimento e modernidade, que tanto inspirou este jovem aspirante a
Regente Agrícola. A sua importância era por todos conhecida e respeitada. O papel
da cidade na história da implantação da nossa democracia, ponha a cidade, de
novo, no centro da história nacional. Tudo levaria a acreditar que esta
participação traria para a cidade um decisivo papel dinamizador do seu desenvolvimento.
Quis o destino (?) que tal não
acontecesse. Hoje a cidade vive, literalmente, à sombra do seu passado. Perdeu
o seu brilho e encanto. O seu centro histórico está velho e decadente. As
pessoas afastaram-se, ou foram levadas a isso. Atravessar as suas ruas e vielas
seculares é um exercício e puro masoquismo. De facto, nada nos atrai. E esse
parece ser um destino inevitável que nos leva a entender o êxodo dos seus
habitantes.
Hoje olhando e pensando na realidade,
não é apenas o centro histórico que perdeu o brilho e a alegria. É a cidade no
seu todo que se apresenta com uma lógica de decadência, qual fatalidade inexorável
e, á qual não conseguimos fugir. Este sentimento de impotência e desresponsabilização,
empurra-nos, cada vez mais, para o abismo do imobilismo. Todos temos de fazer
um esforço de participação cívica, focados naquilo que é, ou deverá ser, o interesse
do nosso destino colectivo.
Inúmeros foram aqueles que nos
conduziram ao actual estado de coisas. Não evoluímos culpabilizando, quem quer
que tenha contribuído para tal. Que isto nos sirva de lição para reflectirmos e,
pelo menos, sabermos decidir o que não queremos. De nada adianta chorar
sobre o leite derramado. Importa pensar o futuro e de forma construtiva. Deixar
de lado os entusiasmos clubísticos e pensar naquilo que faz falta à cidade e à
sua reabilitação.
Assistimos a uma acesa discussão
sobre muitos e variados temas: Do sempre constante problema as barreiras, cuja
solução parece não ser definitiva e teima em chegar; aos discutíveis projectos
e reabilitação (Mercado Municipal, Casa o Benfica, Casa Mortuária, Crematório, Av.
Afonso Henriques, etc.), tudo se discute de forma ligeira e inconsequente. As autoridades
municipais, também parecem não ter uma visão democrática na resolução os
problemas, tomando muitas decisões à revelia os cidadãos e, particularmente, dos
directamente envolvidos (veja-se o caso os comerciantes do Mercado Municipal).
Vamos todos ser mais
compreensivos e actuantes, colocando acima dos nossos interesses individuais, tudo
o que estiver ao nosso alcance, para trazer a cidade à sua glória perdida. Se
não o fizermos, vamos arcar com as culpas e responsabilidade deste marasmo. Os
mais novos vão-nos cobrar, o nosso imobilismo, incapacidade e inabilidade da
herança duma cidade triste, velha, decadente, emparedada onde nada acontece. Se
não formos capazes, o quadro será ainda mais negro, pelo abandono e fuga das
gerações mais novas para outras paragens, mais atractivas e acolhedoras. O
tempo urge. Precisamos de sangue novo e que pense e sinta a cidade como algo
porque vale a pena lutar e um lugar bom para viver, sob pena os mais velhos,
continuarem a discutir o “sexo os anjos”, enquanto a cidade agoniza.
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