Estamos a escassos dias das
eleições legislativas. É bom não esquecermos o que foram estes 45 anos de vida
em Democracia. Muita esperança de vermos um país que já foi grande,
realinhar-se com o desenvolvimento dos países que seriam a nossa referência. Estes
45 anos de Democracia, sofreram muitos percalços iniciais, porque se queria
conduzir o país para um rumo, que seguramente, não diferia muito do anterior,
apenas de sinal contrário.
Com o 25 de Novembro retomou-se a
ideia inicial e apareceram políticos com sentido de estado, com uma matriz
ideológica observável pelo cidadão comum e que se preocuparam com colectivo. Apesar
das muitas diferenças que entre eles havia a sensação de que lutavam pelo bem
comum. Era muito mais importante colocar o país no rumo certo, do que as
conveniências de grupo, ou individuais. As naturais sensibilidades ideológicas
que cada um defendia eram objectivas. Ou seja, cada um de nós sabia com o que
podia contar. Portanto a escolha era fácil. Personificaram esse ideal, homens
como, Mário Soares, Sá Carneiro, Álvaro Cunhal, Adelino Amaro da Costa, apenas
para referir os mais conhecidos.
Daí para cá a qualidade e o
carácter dos políticos tem,-se pautado por um ideário individualista ou
partidário. O país é muito importante nos discursos oficiais, mas depois o que
se verifica é um aproveitamento em benefício próprio, para os correligionários,
para os amigos ou para o partido, das muitas benesses que o poder sempre tem para
distribuir.
É claro que foi muito importante
a nossa adesão à EU, é claro que o país se desenvolveu e progrediu, é óbvio que
os portugueses vivem hoje muito melhor do que noutros tempos, é consensual que alguns
indicadores que medem o desenvolvimento dos povos estão hoje a um nível muito
melhor. Mas isto não explica tudo, e o que nos prometiam, com o passar do tempo
não passam de promessas vãs. Por isso, o que temos que reivindicar é que podíamos
estar muito melhor. Aliás, como muitos outros dos nossos parceiros que passaram
por processos semelhantes, como por exemplo o caso espanhol, apesar no enorme
problema das autonomias que eles têm, a Irlanda e todos os novos países que
recentemente aderiram à UE.
O que eu sinto após todos estes
anos, é uma enorme frustração por ter a consciência que teria sido possível
fazer muito mais e melhor. Apesar da tão apregoada convergência com os nossos
parceiros, o que verificamos é que, a maior parte dos países com os quais nos podemos
comparar, vão-nos passando à frente.
Os partidos políticos transformaram-se
em agências de emprego, onde a capacidade, o curriculum e a entrega
desinteressada à causa pública, deixaram de ser a norma. Apareceram as juventudes
partidárias, que produzem políticos como cogumelos. São estes jovens que são iniciados,
nos níveis mais baixos da intervenção político-partidária, e que paulatinamente
vão subindo na hierarquia. Se isto nada tem de condenável, não traduz qualquer
critério de mérito na escolha e promoção destes jovens. Se quisermos fazer um
exercício de memória, é ver quantos dos nossos líderes partidários mais recentes
fizeram este percurso, sem poderem apresentar uma experiência de vida ou de
trabalho, que possa justificar a escolha.
A nossa frágil Democracia, nos
último 45 anos sofreu muitas das naturais convulsões, e isso todos nós
aceitaríamos com a naturalidade possível. Neste fim de vida posso afirmar que
vivo com uma razoável dignidade. Não posso aceitar é que muitos dos
portugueses, não o consigam da mesma forma, É inadmissível que os nossos jovens
não tenham perspectivas de futuro garantidas. Estamos a investir na educação
dos nossos jovens e, por não encontrarem saídas profissionais dignas, tenham que
emigrar. Ou seja, estamos a investir na qualificação e quem disso vai beneficiar,
são os países que os acolhem. Por oposição estamos a receber muitos mais imigrantes
bem menos qualificados.
O problema, quanto a mim, é que
tudo aquilo que correu mal tem nome, foi o Centrão. Temos sido governados, alternadamente,
por os dois principais partidos, e já vimos que eles afinam pelo mesmo
diapasão. Os ciclos de prosperidade aparente, alternam com convulsões
escusadas, como as três bancarrotas que tivemos que ultrapassar. Esta “experiência”
da geringonça não provou ser melhor do que as anteriores. Eu diria que fenómenos
como a corrupção, o compadrio, e a subserviência ao poder económico, não se
alteraram substancialmente. Muita incompetência, desleixo e
desresponsabilização, podem ser a justificação para os casos dos fogos, de Tancos
e das guerras intestinas com vários sectores de actividade e pela descredibilidade
que o sistema político faz transparecer. Muitos indicadores económicos também
revelam dados preocupantes, apesar do Ronaldo das contas certas.
Temos uma Imprensa servil e
obediente ao poder político e económico. Vejam-se os programas mais atrevidos,
são silenciados de uma maneira escandalosa.
Do outro lado da barricada, e da alternância
democrática, o panorama não será muito diferente e têm ser igualmente co-responsabilizados
pelo estado a que chegamos. Ou seja, se olharmos para as sondagens, vamos ter
mais do mesmo, quer o PS tenha ou não maioria absoluta. O que em meu entender
seria um desastre completo. Votar nos mesmos é perpetuar este estado de águas
turvas em que temos vivido ao longo deste processo democrático. As alternativas,
também não abundam. Mesmos as ditas forças progressistas têm os seus podres, e
precisam de manter a estrutura partidária activa, senão os clientes fogem.
Restam-nos alguns poucos partidos emergentes e alguns com ideias interessantes.
Se tiver que optar pelo voto útil, terá que ser numa destas soluções. Podemos
dizer que no nosso sistema eleitoral, pulverizar os votos beneficia o partido
mais votado, é verdade. Mas para este peditório eu não dou mais. As sociedades
não mudam de um dia para o outro, mas todos nós temos a responsabilidade de
protagonizar a tal pedrada no charco das águas muito turvas, sob
pena de hipotecarmos o futuro dos nossos filhos e netos.
Ficar em casa é que nunca. Só
temos uma oportunidade, e é de quatro em quatro anos. Cada um de nós é uma gota
neste oceano de comodismo e da idéia que impera, de que isto não é connosco. A
Abstenção pêlos valores que tem alcançado, obtinha facilmente uma “maioria
absoluta” Entregar a arma ao bandido, é uma solução suicida. Bem bastam
as aritméticas par(a)lamentares, para a viabilização de soluções aparentemente inusitadas
e incompreensíveis. Ou então não nos podemos queixar.
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