Rui Rio na
sua passagem pela câmara municipal do Porto, granjeou fama de ser um político
sério, rigoroso, de contas certas, mas sobretudo teve o desplante de enfrentar
o mundo do futebol, e muito especialmente o poderoso Pinto da Costa, a quem
todos prestam vassalagem e ninguém ousa enfrentar. Para além disso, não é um
político de “futebóis”! Foram estas características, em nossa modesta opinião, os
trunfos que o levaram à liderança do PSD.
Muito se esperava que ele trouxesse para o debate político,
as qualidades que lhe foram reconhecidas na sua passagem pela edilidade portuense.
Tal não aconteceu. Rui Rio adoptou sempre uma postura mais institucional, quer
no discurso quer na acção, e muitos não lhe perdoaram a aproximação a António
Costa, sobretudo depois de António Costa ter afirmado, na sua habitual
arrogância: "No dia em que a sua subsistência depender do PSD, este
governo acabou." Mesmo nas suas intervenções parlamentares, ninguém
percebeu as muitas cedências que concedeu ao governo, mas sobretudo, a António
Costa, e mais ainda quando as sondagens não lhe eram favoráveis. A suspensão
dos debates quinzenais, é disso um exemplo incontornável. Não aproveitou este mecanismo
regimental para confrontar o seu opositor, com as inúmeras trapalhadas de uma
geringonça, que à partida, tinha tudo para não dar certo. Mesmo nos debates em
que estiveram em causa, as incongruências e contradições, por exemplo do
ministério da saúde, das muitas trapalhadas de Eduardo Cabrita, apenas para
citar dois exemplos, Rio teve sempre uma actuação incompreensivelmente frouxa.
Este comportamento fez despoletar um processo de disputa
pelo poder interno, liderado por Paulo Rangel. Este processo foi muito
semelhante ao que ocorreu no PS, quando António Costa, tentou, e conseguiu,
derrubar António José Seguro.
Este fenómeno ocorre numa situação muito especial. O PS tem
uma derrota importante nas últimas autárquicas, mais em termos qualitativos, do
que quantitativos. Por outro lado, a PSD obtém um resultado autárquico, que ninguém
acreditava fosse possível, sobretudo, em municípios emblemáticos. Pouco depois
aconteceu o desmoronar da Geringonça, o que abre uma janela de oportunidade
para Paulo Rangel tentar a sua sorte. A crise política vem baralhar ainda mais
esta confusão, com a exiguidade de tempo disponível para o processo das
directas no PSD.
Rui Rangel aparece escudado por muitos passistas, dá corpo
a um discurso mais agressivo contra António Costa, e tem o apoio da maioria das
direcções partidárias. Por seu lado, Rui Rio tem muitas hesitações e algumas
contradições, sem nunca perder o seu comportamento austero e institucional. As
inúmeras opiniões que fazem ouvir não reflectem, de forma conclusiva, qual a
escolha dos laranjinhas. Pelos comentários que se ouviam por parte de simpatizantes
do PS, Rui Rio era o mais desejado, e Rangel era mimoseado com epítetos muito
pouco dignos. Vá-se lá saber porquê?
As eleições internas no PSD decorreram de forma pouco comum,
sem debates e, deram a vitória ao candidato que a generalidade dos comentadores
achava que não teria possibilidades. A vitória de Rio, parece ter sido uma escolha
das bases do partido que reflectem mais a opinião do cidadão comum que vota ao
centro, do que a das cúpulas dirigentes, muito instalados nas suas capelinhas
do poder. Provavelmente, a partir de agora, muitos irão olhar para Rui Rio de
uma forma diferente, perdoando-lhe as muitas cedências e aproximações ao PS.
Mas uma questão se pode colocar: será que Rio terá alguma
hipótese de ter um bom resultado eleitoral, se não mudar o seu discurso e a sua
prática política? Temos que admitir que a diferença nas intenções de votos é
enormíssima para, num curto espaço de tempo, tentar inverter o sentido destas
intenções. Outra coisa que ainda não se percebeu é que políticas de alianças
estará Rio disposto a aceitar. Como irá negociar a inusitada aproximação de
António Costa ao centro, no caso de perder as eleições? No caso de vitória, e
num caso de necessidade, manterá o que recentemente afirmou, relativamente ao
CHEGA?
Qual o papel que estará reservado a Paulo Rangel? Depois de
uma “entrada de leão e uma saída de sendeiro”, foi objectivamente prejudicado
por um discurso agressivo, e de ter um apoio maciço de muita gente ligado ao
tempo da Troika. Isso não invalida que este discurso não tenha agradado a muita
gente. O seu futuro imediato, penso que irá voltar a Bruxelas e cumprir o
mandato até ao fim, sem fazer muitas ondas.
Este resultado, em vésperas do congresso social-democrata,
vai fortalecer Rui Rio e a possibilidade da conquista do poder, vai fazer
aparecer muita gente que até agora o criticava. De que forma é que este capital
de vitória poderá provocar uma mudança nas próximas legislativas, ninguém sabe,
ou pode garantir. Mesmo para aqueles que não querem ver uma mudança de ciclo na
política portuguesa, este resultado algo inusitado pode baralhar o pensamento
de quem vota ao centro. António Costa já percebeu isso, e já mudou o discurso.
Vamos aguardar para ver.
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