sexta-feira, 19 de novembro de 2021

A GERINGONÇA AÇORIANA

Sempre fui muito crítico da Geringonça do António Costa. Também achei que a solução que José Manuel Bolieiro, enfermava do mesmo erro cometido pelo 1º ministro – salvar o seu futuro político de um resultado eleitoral menos favorável. Mais ainda quando se viram obrigados a negocial com partidos extremistas e com poucas afinidades ideológicas, e que aproveitariam qualquer oportunidade para fazer valer a sua importância relativa.

Os açorianos manifestaram inequivocamente que pretendiam uma mudança. Bolieiro interpretou demasiado à risca os resultados eleitorais, ou a sede pelo poder, toldou-lhe a objectividade. Como o resultado foi “poucochinho”, não lhe restava outra alternativa do que fazer um pacto com o diabo da extrema-direita, tal como António Costa se entregou nas mãos de PCP e BE. Aqui apenas houve uma mudança de sinal. Os dias estavam contados, e na primeira oportunidade, Nos Açores não passou muito tempo e aí estão os resultados, (orçamento insular), o único deputado do CHEGA falou grosso, e de forma magnânima afirmou: “que dará uma última oportunidade ao Governo regional”. Nesta fase do processo, a Bolieiro só lhe resta duas alternativas: ou cede ás exigências de um único deputado, ou assume as consequências do chumbo do orçamento, e a inevitabilidade de eleições antecipadas. Bolieiro escolheu a pior, a cedência.

Muito se fala na crise, e no acrescentar crise à crise já existente. Claro que todos gostariam que os governos cumprissem os seus mandatos até ao fim. Que no parlamento fosse possível encontrar consensos estáveis e duradouros, com vista ao bem-estar de todos nós. Há quem não se canse de apregoar que eleições antecipadas, e com base nas sondagens, que muito pouco se alteraria no equilíbrio de forças. Ninguém é favorável a uma situação de termos de eleições de 6 em 6 meses, como é óbvio. Mas vivermos com ameaças constantes de rupturas nos entendimentos alcançados para a viabilização de minorias e de cedências inaceitáveis, traduz a incapacidade da classe política em exercer o seu trabalho com ética e seriedade, e uma tremenda falta de respeito para com o eleitorado, ou pior ainda, a pura sobrevivência política.

Por essa Europa fora, na generalidade dos países, os eleitores repartem os seus votos de tal forma, que se torna quase impossível governar em maiorias absolutas, como se pretende cá por casa. Os partidos assumem esta condição com naturalidade e procuram arranjos que permitam a governação sem sobressaltos, apesar das muitas diferenças ideológicas. Os políticos assumem a sua responsabilidade e as crises são a excepção. Para além do mais, uma eleição configura a mais digna forma de honrar a democracia, e transfere para o povo a responsabilidade de corrigir as fragilidades das soluções sem sustentabilidade. Qualquer que seja o resultado, é sempre melhor do que o banho-maria que a continuidade da actual situação parece pressagiar.

Exactamente por se empenhar pouca seriedade neste tipo de arranjos, desprestigia os seus subscritores. E é esta realidade de uma abstenção sempre crescente, que pode justificar os argumentos dos abstencionistas.

A ideia peregrina da formação de geringonças, provou ser uma solução pífia e pouco credível. Repetir esta opção num futuro próximo, é teimosia ou masoquismo. Faço votos que esta solução esteja morta e enterrada, para bem de todos nós. Eu prefiro sempre a solução de um sufrágio. Ao menos assim, só nos podemos queixar de nós próprios. Tal não foi o entendimento.

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