terça-feira, 9 de novembro de 2021

GASTRONOMIA - O FESTIVAL DO NOSSO DESCONTENTAMENTO

O Festival Nacional de Gastronomia de Santarém, é por direito próprio, o mais antigo e o mais famoso dos eventos gastronómicos que se realizam de norte a sul do país. Nasceu há já umas dezenas de anos, assente numa ideia simples, e por isso mesmo condenado ao sucesso. Pretendeu desde o início, promover a riqueza e variedade das tradições gastronómicas do país, disponibilizando a quem o visita, disfrutar num único espaço, desta diversificada oferta. A centralidade de Santarém pela sua posição estratégica, e a excelente acessibilidade, facilitaram todo o resto. Para além disso, assume-se como o principal evento da cidade. Por isso não se estranha a veemência que os escalabitanos põem na sua defesa.

Um evento desta dimensão, e com a projecção que lhe é reconhecida, terá que ter um impacto considerável na cidade, quer na sua componente cultural, no plano turístico, quer sobretudo, na sua vertente económica. Mas será isso que se verifica? Parece-me que não!

Sempre fui muito crítico do Festival de Gastronomia de Santarém, o que me valeu alguns desaguisados com muitos amigos escalabitanos, para além da sua incompreensão com tal sacrilégio.  Uma vez mais reafirmo a minha concordância com ideia que acima referenciei, mas não posso estar de acordo com a estrutura do festival, sobretudo por pensar que a cidade ganha muito pouco com a sua realização.

O festival realiza-se num único espaço, adaptado para uma finalidade, que nada tem a ver com a sua concepção original. Espaço este que tem fragilidades objectivas no plano da circulação das pessoas e nas escapatórias, numa eventualidade de emergência. Também não é difícil imaginar que no plano da segurança alimentar, sobretudo no que diz respeito aos postos de trabalho, não estão garantidas as condições higio-sanitárias exigidas para situações semelhantes. Claro que também se pode dizer, que em Santarém não existe mais nenhuma outra estrutura que pudesse garantir uma alternativa viável. Mas a utilização de tendas desmontáveis e deslocalizadas, não poderia ser uma solução? Esta sugestão permitiria (obrigaria) a deslocação dos visitantes por toda a cidade.

A grande maioria dos que visitam o Festival, são pessoas que vêm de fora. A pergunta que se impõe é: o que é que a cidade oferece aos visitantes durante o período de realização deste evento, fora das paredes do Campo Emílio Infante da Câmara e da Casa do Campino? Eu resido num local que me permite ver as pessoas chegar pela rua O, estacionarem no antigo Campo da Feira, dirigem-se ao recinto do festival, provam as iguarias dos diversos participantes, e pagam a sua despesa (que não fica na cidade, mas vai para uma qualquer Região de Turismo). No final, fazem exactamente o inverso: dirigem-se ao automóvel, seguem em direcção à Rua O, e vão às suas vidinhas.  No dia seguinte vão dizer aos amigos que estiveram em Santarém (?!?!), que comeram uma feijoada à trasmontana, umas migas alentejanas, uma chanfana, umas lulas algarvias, umas lapas dos Açores, uns maranhos da Sertã, e talvez, uma massa à barrão. No final, a cidade pouco lucrou, o que é pena.

Naturalmente que os expositores fazem despesa: instalam-se nas nossas unidades hoteleiras, adquirem alguns produtos. Da restauração da cidade quantas unidades estão representadas no evento? Quantos dos que nos visitam, fazem uma visita aos nossos jardins e monumentos, apreciam a nossa oferta cultural, compram as nossas especialidades, contactam e conhecem os nossos usos e costumes, ou simplesmente, falam e conversam connosco?

Sem negar o sucesso do Festival Nacional de Gastronomia, a oportunidade da sua criação, a sagacidade de quem o concebeu e estruturou, não posso deixar de reflectir que a cidade muito pouco ganha, face ao reconhecimento e projecção que ele tem. Por exemplo, este festival, podia e devia funcionar como um elemento catalisador para o desenvolvimento e atracção do turismo gastronómico para a cidade. Não me parece que isto esteja a acontecer.

Lamento finalmente, uma tendência “gourmet” que parece estar a instalar-se, e a ganhar terreno no Festival, desvirtuando um pouco o espírito inicial. Há quem diga que é para atrair um público mais jovem! Não seria mais importante sensibilizá-los para as tradições gastronómicas, pelo seu valor intrínseco, pelas tradições, pela originalidade, pela qualidade genuina do seu valor cultural, e da sua importância gastronómica, e que estiveram na génese do Festival.

Lamento, gostava de um outro festival em que a cidade se sentisse representada e que beneficiasse muito mais com a sua realização. Tal não consigo vislumbrar, e é pena.

1 comentário:

  1. Estou totalmente de acordo com o que aqui foi dito. Haja quem tenha coragem para o fazer.

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