A classe política portuguesa foi
incapaz de lidar com o fenómeno CHEGA. Adoptou, invariavelmente a atitude
sobranceira de desvalorizar o seu mentor, quer do ponto de vista moral, mas sobretudo
do ponto de vista político. Se no primeiro caso cada um é livre de pensar,
sobretudo quando estão em causa valores que defendemos; do ponto de vista
político, é preciso estar atento àquilo que se observa ao nosso redor.
Sendo assim, o fracasso da
governação dos partidos do “arco da governação”, estiveram sempre mais
preocupadas em servir as suas clientelas, do que resolver os problemas do país e,
sobretudo, os problemas das pessoas. Os últimos 8 anos de governação
socialista, são disto um exemplo clamoroso. Não deve haver na história mais
recente, pelo que seja do meu conhecimento, outro exemplo de uma confortável
maioria parlamentar, uma muito favorável situação conjuntural, o superavit, apesar
de alguns factores negativos (a inflação e as guerras na Ucrânia e em Gaza),
desbaratar todo esse património, é de loucos!
Mas se isto já é mau, pior ainda
é mostrar total insensibilidade aos inúmeros problemas que o país se viu
confrontado. Áreas como a Justiça, a Saúde, a Ferrovia, a Habitação, a TAP, os
inúmeros problemas sindicais, apenas para enumerar os mais prementes, foram
sempre desvalorizadas pelo poder político. A juventude também se viu abandonada
e prejudicada pelo facto de uma maior e melhor qualificação académica, não
corresponder a uma esperança numa vida melhor. Se Passos Coelho não se coibiu
de mandar os jovens emigrar, agora são eles que se põem a caminho sem ninguém
os mandar. Talvez estejam menos piegas, ou talvez abriram os olhos.
Sociologicamente os resultados alcançados
apontam para uma preferência junto das classes mais desfavorecidas, para o
interior esquecido (veja-se o caso do Alentejo e Algarve), as zonas periféricas
dos grandes centros urbanos e a juventude. A esquerda referia, sistematicamente
que o CHEGA era financiado pelas grande e ricas famílias portuguesas, o que é
verdade. Mas pelo que é possível observar nos resultados, este argumento não
colou. Pedro Nuno Santos, apesar da sua impulsividade percebeu a importância do
score alcançado pelo CHEGA. Quer fazer uma oposição robusta a este governo, mas
parece-me bem que pelo menos irá garantir a formação do governo. O problema irá
ser o orçamento, que me custa a acreditar que o PS o possa viabilizar. Por
isso, o cenário de novas eleições para o princípio do próximo ano é mais do que
provável. Se isto for verdade, como irão reagir os eleitores?
Estas eleições revelaram o voto
de protesto a uma esquerda “caviar” que não quis perceber o que se passava à
sua volta. Que fez ouvidos moucos aos protestos e que agora, parece também não
querer compreender que as coisas mudaram. O CHEGA, quer se goste, quer se não
goste é agora o elefante na sala. Os 48 deputados vão fazer toda a diferença
quer para a direita, quer para a esquerda. Ignorar esta realidade, é dar a arma
ao bandido.
A dúvida que me assola é se a
nova correlação de forças tem condições para conseguir governar com alguma
estabilidade. Não consigo imaginar que tipo de conversas possa haver com este
partido, que se vai tornar na verdadeira charneira no parlamento, seja à
direita, seja à esquerda. Ignorar a sua existência não me parece recomendável,
sob pena de numas futuras e mais que prováveis eleições antecipadas, este se
possa tornar na primeira ou segunda força política. Com 4 milhões de euros
anuais de financiamento. Com uma presença assídua e constante nas redes
sociais, independentemente da veracidade da mensagem veiculada, quem e como se
vai segurar o seu crescimento? Quem souber que diga.

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