terça-feira, 12 de março de 2024

A VITÒRIA DO CHEGA

 

A classe política portuguesa foi incapaz de lidar com o fenómeno CHEGA. Adoptou, invariavelmente a atitude sobranceira de desvalorizar o seu mentor, quer do ponto de vista moral, mas sobretudo do ponto de vista político. Se no primeiro caso cada um é livre de pensar, sobretudo quando estão em causa valores que defendemos; do ponto de vista político, é preciso estar atento àquilo que se observa ao nosso redor.

Sendo assim, o fracasso da governação dos partidos do “arco da governação”, estiveram sempre mais preocupadas em servir as suas clientelas, do que resolver os problemas do país e, sobretudo, os problemas das pessoas. Os últimos 8 anos de governação socialista, são disto um exemplo clamoroso. Não deve haver na história mais recente, pelo que seja do meu conhecimento, outro exemplo de uma confortável maioria parlamentar, uma muito favorável situação conjuntural, o superavit, apesar de alguns factores negativos (a inflação e as guerras na Ucrânia e em Gaza), desbaratar todo esse património, é de loucos!

Mas se isto já é mau, pior ainda é mostrar total insensibilidade aos inúmeros problemas que o país se viu confrontado. Áreas como a Justiça, a Saúde, a Ferrovia, a Habitação, a TAP, os inúmeros problemas sindicais, apenas para enumerar os mais prementes, foram sempre desvalorizadas pelo poder político. A juventude também se viu abandonada e prejudicada pelo facto de uma maior e melhor qualificação académica, não corresponder a uma esperança numa vida melhor. Se Passos Coelho não se coibiu de mandar os jovens emigrar, agora são eles que se põem a caminho sem ninguém os mandar. Talvez estejam menos piegas, ou talvez abriram os olhos.

Sociologicamente os resultados alcançados apontam para uma preferência junto das classes mais desfavorecidas, para o interior esquecido (veja-se o caso do Alentejo e Algarve), as zonas periféricas dos grandes centros urbanos e a juventude. A esquerda referia, sistematicamente que o CHEGA era financiado pelas grande e ricas famílias portuguesas, o que é verdade. Mas pelo que é possível observar nos resultados, este argumento não colou. Pedro Nuno Santos, apesar da sua impulsividade percebeu a importância do score alcançado pelo CHEGA. Quer fazer uma oposição robusta a este governo, mas parece-me bem que pelo menos irá garantir a formação do governo. O problema irá ser o orçamento, que me custa a acreditar que o PS o possa viabilizar. Por isso, o cenário de novas eleições para o princípio do próximo ano é mais do que provável. Se isto for verdade, como irão reagir os eleitores?

Estas eleições revelaram o voto de protesto a uma esquerda “caviar” que não quis perceber o que se passava à sua volta. Que fez ouvidos moucos aos protestos e que agora, parece também não querer compreender que as coisas mudaram. O CHEGA, quer se goste, quer se não goste é agora o elefante na sala. Os 48 deputados vão fazer toda a diferença quer para a direita, quer para a esquerda. Ignorar esta realidade, é dar a arma ao bandido.

A dúvida que me assola é se a nova correlação de forças tem condições para conseguir governar com alguma estabilidade. Não consigo imaginar que tipo de conversas possa haver com este partido, que se vai tornar na verdadeira charneira no parlamento, seja à direita, seja à esquerda. Ignorar a sua existência não me parece recomendável, sob pena de numas futuras e mais que prováveis eleições antecipadas, este se possa tornar na primeira ou segunda força política. Com 4 milhões de euros anuais de financiamento. Com uma presença assídua e constante nas redes sociais, independentemente da veracidade da mensagem veiculada, quem e como se vai segurar o seu crescimento? Quem souber que diga.

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