Muitos como eu, ficaram
satisfeitos com os recentes resultados eleitorais. O país estava farto de ver a
forma autoritária como o PS governou, e mais ainda como desbarataram a confortável maioria parlamentar que dispunham.
A AD, com um score eleitoral
minoritário, teria boas razões para ser especialmente cuidadosa para conseguir
um apoio parlamentar que lhe permitisse, entre outras coisas, capitalizar o excedente
orçamental deixado pelo governo socialista. Todos sabemos que esse excedente foi
conseguido, de forma directa pela inflação, e de forma indirecta pelas
engenharias financeiras, leia-se cativações. Também não custa muito acreditar que
o PS, lhes tenham perspectivado uma utilização eleitoralista para as próximas eleições
europeias e autárquicas, assim o governo não tivesse caído.
Luís Montenegro, por ingenuidade
ou incompetência, não conseguiu manter o mantra do “não é não”, para além do
primeiro desafio político, como é o caso da eleição do presidente da Assembleia
da República. Era por demais evidente, que acordos com o CHEGA, só serão para
cumprir, quando isso lhes der jeito. Se o que André Ventura referiu com “acordo”,
ou “entendimento”, só poderia ter algum significado se tivesse sido assumido
por todos. Aliás, nada de novo num sistema parlamentar, e particularmente
quando se governa em minoria. Entendimentos pontuais, não surpreendem, quando
realizados de forma clara e cristalina, o que não foi o caso. Também em matéria
como a eleição do presidente da Assembleia da República, só faria algum sentido
com conversações prévias entre o PS e o PSD. Estes, além da maior representação
parlamentar, são respeitadores das tradições parlamentares, e com isto teriam
poupado o espectáculo pouco edificante a que ontem assistimos.
Vários comentadores apontavam como
principal culpado André Ventura, pelas cenas pouco edificantes a que ontem
assistimos, mas a mim parece-me que o principal culpado foi Luís Montenegro.
Por ingenuidade ou inabilidade política, caiu na armadilha de escolher o
parceiro errado.
Mandou o bom senso que, após três
tentativas falhadas, se tivesse arranjado uma solução inovadora, ou mesmo criativa
de uma presidência rotativa entre os dois principais partidos. Aparentemente
esta solução vai resolver o impasse criado. Assim, Pedro Aguiar Branco, embora
fragilizado, seja capaz de tomar as rédeas dos trabalhos parlamentares de forma
digna. O CHEGA não lhe vai facilitar a vida, isto é mais do que evidente.
Importa ainda meditar sobre a
importância no equilíbrio parlamentar que um partido como o CHEGA vai
protagonizar nesta legislatura. Toda esta encenação remete-nos para um partido
anti-sistema, e que só pode ser vencido, não o ignorando, e apresentando as
fragilidades do populismo com propostas credíveis e negociadas com os parceiros
parlamentares credíveis. Também se percebeu que o CHEGA pretende esticar a
corda de forma a bloquear tudo o que lhe possa dar benefícios eleitorais. Pelos
vistos, a próximo orçamento vai exigir um entendimento com o PS, sob pena de
termos de ser chamados, de novo, a eleições antecipadas. E só um partido pode
beneficiar deste chumbo. E já ontem foi dado o primeiro passo neste sentido.
O PSD, para quem está ávido de
poder, fez asneira da grossa. Não satisfeito com isto, a primeira intervenção de
Joaquim Miranda Sarmento, foi no mínimo desastrosa. Luís Montenegro tem muito a
aprender deste malfadado episódio. Se não puser ordem na casa, também não é
merecedor da vantagem que obteve.

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