domingo, 10 de março de 2024

LEGISLATIVAS 2024 - UMA DERROTA ANUNCIADA

 

Fomos antecipadamente chamados a eleições legislativas porque um governo de maioria absoluta, se viu envolvido numa série de casos e casinhos; com mais de uma dezena de demissões em pouco mais de um ano, e como se isto ainda não bastasse, viu o seu primeiro-ministro sentir-se na obrigação de apresentar a sua demissão na sequência de um caso de polícia, que ocorreu num gabinete contíguo ao seu e onde estava envolvido o seu melhor amigo e seu homem de confiança!

Todas as forças políticas viram-se na necessidade de arregimentar forças e ir à luta. O PS foi a directas com dois dos seus militantes: José Luís Carneiro e Pedro Nuno Santos (PNS). É preciso referir que era voz corrente que PNS, não era a preferência de António Costa para dar continuidade ao seu projecto, para além de se ter demitido pelas broncas que protagonizou enquanto fazia parte do governo. Essas directas foram ganhas por PNS e os eleitores foram confrontados com o seguinte dilema: se PNS se demitiu por não ter cumprido as orientações do primeiro-ministro, iria servir agora como candidato nestas legislativas para alcançar aquele lugar? Mais ainda, na sequência da demissão de António Costa, este apresentou ao presidente da república como solução de continuidade e sem necessidade de eleições, o nome de Mário Centeno e não PNS. É no mínimo difícil de entender! E quase de certeza que vamos ouvir que a culpa de tal resultado, ou foi do Passos, ou da comunicação social.

Destas eleições podemos retirar algumas ilações:

Os portugueses queriam e manifestaram uma vontade de mudar. Essa mudança consubstanciou-se na penalização do PS e numa subida objectiva dos outros partidos, nomeadamente o PSD, a IL, o LIVRE e o CHEGA.

O CHEGA obteve o score que as projecções iniciais mostravam, mas mesmo assim obteve um resultado histórico e, pode agradecer isso ao PS, a António Costa, a Augusto Santos Silva e a PNS, numa repetida intenção de colar este partido ao PSD para o enfraquecer. Pelos vistos não resultou. Ninguém sabe exactamente o que este partido irá fazer, mas vamos ter certamente, uma Assembleia da República muito mais ruidosa. André Ventura conseguiu aquilo que queria. Ou seja, ser indispensável para a formação de um governo seja ele qual for!

PNS teve durante toda a campanha fez um percurso errático e reactivo, enquanto Luís Montenegro adoptou um estilo mais sereno e sem abdicar do rumo que traçou ao longo de toda a campanha. Se PNS suavizou o discurso vigoroso que o caracteriza, e cedo se apercebeu que aquilo soava a falso e, rapidamente, reverteu ao seu estilo natural. Nem o estafado mantra do Passos convenceu os indecisos. E o mote da campanha - Portugal Inteiro, vindo de quem deixou em cacos tudo onde interveio, não foi muito feliz. Teve alguma dificuldade em afastar-se do legado de António Costa, mas referia, frequentemente, que não podíamos “arrastar os pés”, uma crítica velada a esse mesmo legado.

Os partidos à esquerda, com a excepção do LIVRE, adoptaram o discurso habitual da cassete e não ofereciam nada de substancialmente diferente.

Estas legislativas representaram alguns aspectos dignos de registo especial: no facto dos portugueses não ficaram indiferentes ao que nos conduziu a este processo eleitoral, e manifestaram-se massivamente, baixando assim o nível de abstenção. Igualmente de salientar o facto de muitos jovens terem ido votar, o que também é inédito e compreensível.

Outro aspecto digno de realce é que, quer a AD, quer o PS, não conseguem formar um governo com alguma estabilidade junto do seu espectro ideológico. Isto se, o “não é não” de Luís Montenegro for para manter. au seja, destas eleições apenas houve um vencedor, todos os outros ou perderam, ou tiveram um resultado pífio. Mesmo a AD, que elegeu o maior número de deputados, vai ter muita dificuldade em governar. Qualquer arranjo te que, forçosamente de contar com o CHEGA, e isso não é bom.

Segundo diz Joaquim Aguiar: “o povo tem sempre razão, mesmo quando não sabe a razão que tem” aplica-se que nem uma luva à situação actual. Ou seja, o povo foi obrigado a ir a eleições e a forma que teve de fazer sentir o seu desagrado, foi através do voto popular numa manifesta afirmação de mudança.

Uma nota final, num sistema democrático, as eleições não servem apenas para eleger os melhores, mas fundamentalmente, para derrubar os piores. Será que desta vez faz sentido?

1 comentário:

  1. Gostei muito do texto.
    Considero não percebendo muito de política-que estão todos com medo do Papão.
    Não há razão para isso.
    A mudança é sempre boa.
    Tem 48 lá metidos.
    Há que respeitar e esperar.
    Deviam-se entender.
    Não é bom haver novas eleições lá para a frente.
    Era de esperar este desenlace.
    O “homem” não come ninguém.
    Um abraço Albano

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