Este tema tem tomado, recentemente, uma importância cada vez
maior e, um pouco por todo o lado, são muito acesas as discussões à volta do
assunto. Nestas discussões sobressai um bairrismo doentio, invocando genericamente,
a assunção de que, tudo aponta para que seja Ponta Delgada é a cidade escolhida,
em detrimento das outras cidades, a saber: Angra e Horta. Tudo isto acontece
porque, embora informalmente, há um reconhecimento implícito de que Ponta
Delgada seja reconhecida como tal. Este reconhecimento assenta no facto da
cidade se ter revelado como o polo de desenvolvimento e de modernidade do
arquipélago, em oposição a algum imobilismo existente nas outras ilhas.
Por outro lado, há quem argumento que pela dispersão
geográfica, pelas diferentes realidades sócias económicas, faz muito mais
sentido a realidade presente, como forma de garantir a coesão de todos os
açorianos. Ou seja, não haver formalmente a indicação de uma cidade para instalar
a capital dos Açores.
No desenvolvimento do projecto autonómico, houve a
preocupação de distribuir por estas três cidades, os mais importantes
mecanismos da governação e, não só. Em Ponta Delgada localiza-se a sede do
Governo Regional. Na cidade da Horta a instalação do poder legislativo.
A eventual escolha de uma cidade para a capital da Região Autónoma
dos Açores, será sempre polémica e, haverá sempre um sentimento de ressentimento
nas preteridas, qualquer que seja a opção a tomar. Os argumentos que se
apresentam, para que esta escolha recaia sobre aquelas três cidades, são fortes
mas, naturalmente questionáveis.
Há os que defendem que essa escolha deveria recair sobre
Angra do Heroísmo, pelo papel histórico que a cidade desempenhou ao longo de
muitos séculos e, ainda pelo reconhecimento como cidade Património Mundial pela
UNESCO. Este estatuto confere-lhe uma natural sustentação.
A Horta reivindica para si, a localização do órgão máximo do
poder autonómico, a Assembleia Legislativa, e o seu cosmopolitismo secular, como
argumento para a localização da capital naquela cidade.
Para Ponta Delgada os argumentos são, para além da localização
de cerca de metade da população dos Açores, a sua importância económica e, a localização
da sede do Governo Regional, já para não referir o seu papel decisivo no boom
turístico verificado nos tempos mais recentes.
A descentralização orgânica da Administração Regional, foi implementada
pela localização, por várias ilhas, das diversas secretarias e serviços, com
vista a garantir maior equidade. Se isto corresponde a um natural anseio das
populações e assenta numa justa distribuição do poder político-administrativo,
tem uma dificuldade acrescida, no que diz respeito à sua articulação com os
demais serviços. Exemplo disto, é a localização de três polos, da Universidade
dos Açores por Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta.
A Região tem órgãos de governo próprio: a Assembleia
Legislativa e o Governo Regional. A Região tem bandeira, brasão de armas, selo
e hino próprios, aprovados pela Assembleia Legislativa. O Estatuto Político e
Administrativo da Região define o direito à autonomia política, legislativa,
administrativa, financeira e patrimonial. O órgão executivo de condução da
política da Região e o órgão superior da administração regional, o Governo
Regional é constituído pelo Presidente e pelos Secretários Regionais, pode
incluir Vice-Presidentes e Subsecretários Regionais.
Voltando à causa da existência ou não de uma cidade capital
para os Açores. Se os Açores conquistaram o direito a um estatuto de autonomia
plena, depois de uma luta de muitas dezenas de anos e levada a cabo por muitos
açorianos distintos. Se este estatuto foi finalmente consagrado em 1976. Se a
região detém nos dias de hoje uma autonomia política e administrativa plena. Se
a Região tem bandeira, brasão de armas, selo e hino próprios, porque razão não poderá
ter uma capital? Invoca-se a miúde o facto de que este assunto divide mais do
que une os açorianos, aumentado as questiúnculas de bairrismos serôdios, sem
que se veja os aspectos positivos que tal decisão podia trazer, nomeadamente,
clarificando, de uma vez por todas, a informalidade da atribuição a Ponta
Delgada deste estatuto, exactamente por não ser formal.
O processo autonómico viveu um período inicial de
transferência dos serviços periféricos para a esfera do Governo Regional, em
que foi necessário criar tudo de raiz e, dar-lhe uma forma de se adaptar o
poder instituído e os açorianos em geral a esta nova realidade. Tudo isto foi
feito numa lógia de unidade territorial. Ou seja, pretendeu dar-se a todos os
açorianos, independentemente da ilha onde vivessem, um estatuto semelhante. Estes
tempos já passaram. A autonomia seguiu o seu rumo, ganhou experiência e hoje viaja
em velocidade de cruzeiro. Penso que o problema se coloca agora, pela simples razão
que algumas ilhas conseguiram encontrar meios de evolução para as práticas
tradicionais, como por exemplo da pecuária para o turismo, como forma de
conseguir um desenvolvimento sustentado, pelo menos no curto e médio prazo.
Naturalmente que este esforço, não pode ser replicado, automaticamente em todas
as ilhas. As razões são muitas e variadas, mas também não são novas, nem
improváveis. Numa opinião muito pessoal, penso que a região (ultraperiférica)
só teria a ganhar se definisse uma das suas cidades como capital. A escolha
deveria recair, tendo por base um critério de valorização global e que melhor
representasse a região, seja do ponto de vista histórico, político ou de
desenvolvimento socioeconómico. Nada fazer-se quanto a isto será, perpetuar a
tal discussão estéril, numa conversa bafienta, de que “a minha ilha é melhor
do que a tua”. A actual situação, em que ninguém com responsabilidade quer
emitir uma opinião, vai conduzir, inexoravelmente, à atribuição deste título a
Ponta Delgada, apesar de maneira não institucional. Deixar as coisas como
estão, sem uma escolha formal e consciente dos açorianos, vai contribuir, cada
vez mais, para divisões em que todos perdemos.
O primeiro Movimento Autonomista(1892), o dos "father founders", Aristides da Mota e Mont'Alverne de Sequeira, mantém os três distritos. Também não fala de "Povo Açoriano", mas sim de povos dos Açores...
ResponderEliminarAbsolutamente de acordo. O problema reside no facto de que, mesmo de maneira informal, atribui-se a Ponta Delgada este estatuto. As razões para este facto, penso que se prendem com o seu desenvolvimento socioeconómico, dimensão geográfica e demográfica. Por outro lado, por exemplo Angra, desfruta de um património histórico invejável, se o critério de escolha assentasse nessa premissa. Deixar tudo como está, vai conduzir, inevitavelmente, a bairrismos exacerbados, agravando ainda mais este grande imbróglio. Certamente que não há um Povo Açoriano. Mas temos que reconhecer que existe uma identidade açoriana.
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