domingo, 20 de outubro de 2019

AINDA A QUESTÃO DA ABSTENÇÃO


Passadas que estão as últimas eleições legislativas, em que a abstenção atingiu um valor recorde de 51.43%. Não houve candidato ou líder político que não tivesse, de forma veemente, apelado à participação dos cidadãos. Acabadas que estão as eleições, o caso caiu num vazio absoluto. Á a ideia que os apelos, mais não foram do que, uma forma de credibilização democrática, do que uma real vontade em resolver este problema.
O fenómeno da abstenção é uma realidade que ninguém fica indiferente e, descredibiliza o ideal democrático. Ainda mais preocupante é que, este valor é ainda maior junto das camadas jovens da população! Não é uma realidade apenas portuguesa, mas isso não nos deve impedir de pensar sobre o assunto e da adopção de medidas tendentes a evitá-la. Desde logo saber-se porque é que o cidadão se alheia, de uma forma voluntária da sua participação e exercício de cidadania. A abstenção, os votos nulos e em branco, constituem uma forma de protesto do eleitor e, certamente poderá ser, uma das explicações mais plausíveis para isso. É indo e, compreendendo a raiz o problema, que pode propor e implementar medidas redutoras do fenómeno.
Existem muitas explicações que justificam esta realidade: a mediocridade da classe política; os inúmeros fenómenos da corrupção associados à classe política; o alheamento e desinteresse do eleitor, que é uma consequência das anteriores; o favorecimento de determinados grupos, suportados pelo contribuinte; a convicção que o seu voto não tem influência na modificação do status quo; a não realização o acto eleitoral num dia de semana; a pouca participação cívica o cidadão na sociedade, etc. Uma coisa é certa, o fenómeno existe, está em crescimento e não parece haver vontade de alterar alguma coisa para o controlar.
São muitas as propostas como o voto obrigatório. São muita as personalidades que o defendem e com uma argumentação válida: se somos obrigados a fazer a nossa declaração de rendimentos, se temos vários seguros obrigatórios, a vacinação, porque razão não se há-de aplicar este princípio ao eleitor? Na minha modesta opinião, isso significaria coarctar um princípio de liberdade associada ao exercício de um dever, não de uma obrigação.
O voto electrónico, presencial ou remoto, é talvez, a solução mais prática e efectiva de combater o abstencionismo. Portugal é pioneiro em muitas soluções tecnológicas, nomeadamente ao nível do relacionamento institucional do cidadão com a Administração Pública. A sua implementação, serie uma opção simples e eficaz e que peca por tardia. De salientar que nas últimas eleições europeias, foi feita uma experiência piloto em Évora com aparente sucesso. E mesmo as reservas de segurança que o voto electrónico suscita, não me parece uma questão inultrapassável.
A discriminação fiscal, pelo contrário, parece-nos talvez, uma solução a estudar. Ou seja, o eleitor era livre de exercer ou não o seu direito de votos. Se não o fizesse, arriscava-se a ter uma penalização no seu relacionamento com uma administração pública, que ele voluntariamente se exclui de escolher, como por exemplo não poder concorrer a um lugar público. A aplicação de uma taxa máxima a quem se abstém. Naturalmente que esta medida tem de ser objecto de um estudo profundo, no sentido da sua praticabilidade.
Qualquer um observa um crescente “divórcio” entre a classe política e os seus eleitores. Isso assenta numa descredibilização do papel dos partidos e da sua praxis. Instalou-se a sensação que o nosso voto não resolve nada e que os partidos, são um pretexto para muita gente encontrar uma forma de vida confortável e segura. A criação de ciclos uninominais, mesmo que de forma reduzida, podia ser uma forma e aproximação dos políticos aos seus eleitos. Várias vezes ouvimos já esta intenção manifestada, mas as legislaturas sucedem-se, sem que ninguém tenha a coragem, o interesse, ou conveniência, em alterar o que quer que seja.
O ónus desta realidade não pode ser assacado a quem decide não votar. È preciso ir mais longe, compreender o porquê desta atitude, tentar perceber o que está mal no sistema e qual a forma melhor de contrariar esta tendência. Deixar para depois como tem sido hábito, é que não pode ser. Os jovens vivem num país sem esperança. A precariedade generalizada confirma este sentimento de impotência, de que a sua participação possa mudar alguma coisa. Se de facto, os nossos eleitos têm vontade de mudar o actual estado de coisas, é agora que têm de agir. Deixar para mais tarde, pode ser tarde demais. Além disso, os populismos encontram o ambiente ideal para “venderem” as suas ideias.

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