Antes demais
deixem-me fazer uma declaração de interesses. Não tenho nenhuma ideologia
definida. Considero-me um livre pensador, que toma as suas decisões no
exercício de uma cidadania livre e responsável, assente principalmente, nos valores
e convicções adquiridas ao longo de toda uma via. Antes, porém, consigo
subscrever muito das propostas da social democracia do norte da europa, muito
particularmente, o pensamento políticos de estadistas como Olaf Palme e
Francisco Sá Carneiro. Sobretudo por uma visão moderna e liberal da organização
da sociedade, na orientação de uma justa distribuição igualitária dos
benefícios da sociedade capitalista em que vivemos. Uma actuação reformista,
com vista á modernização da sociedade e promoção
de uma verdadeira justiça social.A discussão entre Esquerda/Direita,
que tenta a todo o custo impor uma agenda na discussão política, parece-nos ser
no mínimo, destituída de sentido. Por isso, seria pertinente perguntar: onde
começa a esquerda e termina a sua área ideológica. a mesma forma se pode
levantar-se igual questão para a direita, e para o centro. Mais absurdo é a argumentação
de que na esquerda estará a justeza das suas orientações, na defesa dos mais desprotegidos,
das políticas sociais e que, do outro lado estaria a defesa dos mais ricos.A esquerda defende uma organização
de economia de estado, num afastamento de qualquer simpatia religiosa, etc.
Pelo contrário, a direita, condena a economia de estado, defende a iniciativa
privada; aceita as desigualdades sociais, numa visão liberal e natural da
sociedade. São estes os aspectos fundamentais onde reside a discussão.A lógica deste raciocínio
tem origem no seguimento da revolução francesa, onde os pobres se sentavam à
esquerda do rei, e os ricos à direita. Se isto podia fazer algum sentido há 200
anos atrás, nos dias e hoje e, num contexto completamente diferente, é de todo disparatado.
Tanto assim, que tiveram que se designar todo um conjunto de denominações para
acolher as muitas sensibilidades das orientações ideológicas: extrema esquerda
e direita, centro direita e esquerda, esquerda democrática, centro, direita
liberal, esquerda totalitária, direita populista, etc. Se a democracia defende
a igualdade entre todos, o discurso inflamado e maniqueísta de que, de um lado
(a esquerda) estão os bons, e do outro lado (a direita), estarão os maus é, no
mínimo primário e redutor! No panorama português é exactamente isso que se
verifica: O Bloco de Esquerda não é visto e tratado como um partido de extrema esquerda;
já o Chega que se encontra do outro lado, é facilmente classificado como de
extrema direita, ou mesmo fascista. Se considerarmos que os dois estão
equidistantes do centro, deviam ter um tratamento semelhante. Mas na realidade
não é este o tratamento dispensado a um e a outro. Mais ridículo é a associação
dos fenómenos de corrupção como um atributo da direita, quando os actos
recentes apontam em sentido contrário ou, mais justamente, atravessam
transversalmente todo o espectro partidário. Que bondade há em regimes protagonizados
por Maduro, na Venezuela; ou de Bolsonaro, no Brasil? Quem é mais populista
António Costa a tomar café, como uma promessa de campanha, ou de André Ventura
ao integrar uma manifestação do Movimento ZeroAté dentro dos próprios
partidos a sua prestação política altera-se ao sabor de algumas variantes: se falam
para o país, Ou para fora; ou muitas vezes as ideologias passam para segundo
plano, quando isso interessa; ou se estão no poder ou na oposição; conforme as
liderança, com a proximidade de eleições, a dificuldade em aceitar os fracassos
ou as propostas externas, etc.A concluir, não se trata
de uma questão ideológica ou programática. Trata-se, isso sim, de uma vontade
incontrolável por conquistar o poder, porque aí, a imaginação encontra inúmeros
justificativos para suportar qualquer desvio. E o partido, corporativamente dará
a necessária cobertura.A sensação é que o
eleitor, que naturalmente orienta a sua intervenção numa escolha, com a nobreza
do que é melhor para o país, olha para esta argumentação com desconfiança ou,
mesmo, com a sensação de que os discursos oficias são pouco credíveis ou nada
confiáveis. Portanto, a discussão torna-se por isto mesmo, incompreensível para
quem se dê ao trabalho de uma análise mais atenta. O país e os portugueses
reflectem politicamente, o seu posicionamento, fazendo uma escolha que devia configurar
um contraditório sério e descomprometido. Mais do que os problemas que a
sociedade enfrenta, a sua solução não pode assentar apenas numa preocupação
ideológica. O que todos queremos ver são os problemas resolvidos, numa
perspectiva do interesse nacional independentemente de um posicionamento à
esquerda ou à direita.

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