domingo, 26 de janeiro de 2020

ESQUERDA/DIREITA - UMA DISCUSSÃO ESTÉRIL


Antes demais deixem-me fazer uma declaração de interesses. Não tenho nenhuma ideologia definida. Considero-me um livre pensador, que toma as suas decisões no exercício de uma cidadania livre e responsável, assente principalmente, nos valores e convicções adquiridas ao longo de toda uma via. Antes, porém, consigo subscrever muito das propostas da social democracia do norte da europa, muito particularmente, o pensamento políticos de estadistas como Olaf Palme e Francisco Sá Carneiro. Sobretudo por uma visão moderna e liberal da organização da sociedade, na orientação de uma justa distribuição igualitária dos benefícios da sociedade capitalista em que vivemos. Uma actuação reformista, com vista á modernização da sociedade e promoção de uma verdadeira justiça social.A discussão entre Esquerda/Direita, que tenta a todo o custo impor uma agenda na discussão política, parece-nos ser no mínimo, destituída de sentido. Por isso, seria pertinente perguntar: onde começa a esquerda e termina a sua área ideológica. a mesma forma se pode levantar-se igual questão para a direita, e para o centro. Mais absurdo é a argumentação de que na esquerda estará a justeza das suas orientações, na defesa dos mais desprotegidos, das políticas sociais e que, do outro lado estaria a defesa dos mais ricos.A esquerda defende uma organização de economia de estado, num afastamento de qualquer simpatia religiosa, etc. Pelo contrário, a direita, condena a economia de estado, defende a iniciativa privada; aceita as desigualdades sociais, numa visão liberal e natural da sociedade. São estes os aspectos fundamentais onde reside a discussão.A lógica deste raciocínio tem origem no seguimento da revolução francesa, onde os pobres se sentavam à esquerda do rei, e os ricos à direita. Se isto podia fazer algum sentido há 200 anos atrás, nos dias e hoje e, num contexto completamente diferente, é de todo disparatado. Tanto assim, que tiveram que se designar todo um conjunto de denominações para acolher as muitas sensibilidades das orientações ideológicas: extrema esquerda e direita, centro direita e esquerda, esquerda democrática, centro, direita liberal, esquerda totalitária, direita populista, etc. Se a democracia defende a igualdade entre todos, o discurso inflamado e maniqueísta de que, de um lado (a esquerda) estão os bons, e do outro lado (a direita), estarão os maus é, no mínimo primário e redutor! No panorama português é exactamente isso que se verifica: O Bloco de Esquerda não é visto e tratado como um partido de extrema esquerda; já o Chega que se encontra do outro lado, é facilmente classificado como de extrema direita, ou mesmo fascista. Se considerarmos que os dois estão equidistantes do centro, deviam ter um tratamento semelhante. Mas na realidade não é este o tratamento dispensado a um e a outro. Mais ridículo é a associação dos fenómenos de corrupção como um atributo da direita, quando os actos recentes apontam em sentido contrário ou, mais justamente, atravessam transversalmente todo o espectro partidário. Que bondade há em regimes protagonizados por Maduro, na Venezuela; ou de Bolsonaro, no Brasil? Quem é mais populista António Costa a tomar café, como uma promessa de campanha, ou de André Ventura ao integrar uma manifestação do Movimento ZeroAté dentro dos próprios partidos a sua prestação política altera-se ao sabor de algumas variantes: se falam para o país, Ou para fora; ou muitas vezes as ideologias passam para segundo plano, quando isso interessa; ou se estão no poder ou na oposição; conforme as liderança, com a proximidade de eleições, a dificuldade em aceitar os fracassos ou as propostas externas, etc.A concluir, não se trata de uma questão ideológica ou programática. Trata-se, isso sim, de uma vontade incontrolável por conquistar o poder, porque aí, a imaginação encontra inúmeros justificativos para suportar qualquer desvio. E o partido, corporativamente dará a necessária cobertura.A sensação é que o eleitor, que naturalmente orienta a sua intervenção numa escolha, com a nobreza do que é melhor para o país, olha para esta argumentação com desconfiança ou, mesmo, com a sensação de que os discursos oficias são pouco credíveis ou nada confiáveis. Portanto, a discussão torna-se por isto mesmo, incompreensível para quem se dê ao trabalho de uma análise mais atenta. O país e os portugueses reflectem politicamente, o seu posicionamento, fazendo uma escolha que devia configurar um contraditório sério e descomprometido. Mais do que os problemas que a sociedade enfrenta, a sua solução não pode assentar apenas numa preocupação ideológica. O que todos queremos ver são os problemas resolvidos, numa perspectiva do interesse nacional independentemente de um posicionamento à esquerda ou à direita.

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