sábado, 22 de fevereiro de 2020

ESTA EUTANÁSIA NÃO, OBRIGADO.


Pela importância de que este assunto se reveste, não podia ficar calado com a decisão alcançada no nosso Parlamento. Naturalmente é um assunto muito sério, e que não foi objecto de um debate alagado a toda a sociedade. Vamos moldando a nossa opinião á medida que nos aproximamos do fim dos nossos dias, por motivos de maturidade e de convicção. Modifica-se por razões muito variadas e todas são válidas e respeitáveis, por resultarem da forma como cada um encara a vida com todos os seus percalços. Uns reagem de forma reactiva, outros de forma mais reflectida e ponderada. Uns aceitam o sofrimento com resignação, outros, pelo contrário, rejeitam todo e qualquer circunstância que torne o seu dia a dia penoso, doloroso, sem esperança, solitário (voluntário ou imposto), em doença terminal, etc. Se não fomos ouvidos no acto de nascermos; se vivemos a nossa vida nas condições que essa mesma vida nos impôs; se não conseguimos ao longo dos anos ter uma existência condigna; temos que aceitar, que cada ser humano tem o direito de escolher a forma como quer acabar os seus dias.
Não sou por princípio contra a esta vontade, desde que conscientemente represente uma opção tomada pelo próprio no pleno uso de todas das suas capacidades. Quanto à decisão política tomada pêlos nossos parlamentares, não posso deixar de expressar o meu mais veemente repúdio.
O tema em debate não pode ser visto nunca numa perspectiva, religiosa, filosófica, ideológica, e muito menos política, embora entenda que estas podem afectar e interferir com uma tomada de decisão consciente. Deve tratar-se de uma resolução individual, tomada de forma voluntária, devidamente elucidada sobre todas as consequências que este assunto se reveste. Ou seja, quem optar por aceitar a eutanásia, fá-lo por razões individuais e tomadas pela sua própria consciência.
Tratando-se de um problema de consciência, não consigo compreender que se possa impor uma legislação, tomada por alguns “representantes” do povo (eu sinto-me muito mal representado) e pelo que vimos, com base numa escolha ideológica, na maioria dos casos. Se ao menos, esta promulgação tivesse tido lugar após uma consulta popular – Referendo, mesmo que não tivesse sido vinculativo, ainda se podia aceitar alguma legitimidade.
Ainda existe outro factor preocupante, no meu modesto entender. As propostas apresentadas ditam que, para cumprir esta vontade, os médicos e os hospitais sejam envolvidos obrigatoriamente, na sequência da lei aprovada. Ou seja, torna cúmplice quem por razões pessoais, possa estar contra tal prática. A objecção de consciência apresenta-se em oposição à obrigação do Estado de fazer cumprir a legislação que venha a suportar o tema em debate. O SNS tem o dever de obrigar um Hospital e os seus profissionais a cumprirem esta vontade expressa por qualquer utente. O suicídio assistido é talvez, a maneira mais independente de o praticar. Ou seja, todo o processo será conduzido pelo próprio, evitando assim, o envolvimento de terceiros contra a sua vontade.
Esta assunto, mesmo depois da decisão tomada, vai ter um longo caminho a percorrer. O presidente da república tem que se pronunciar, sobre a constitucionalidade da lei em causa. Muitos constitucionalistas garantem que a solução encontrada é inconstitucional. A sociedade civil tem-se movimentado no sentido de promover um debate alargado. Ou seja, vamos esperar que este assunto não morra por aqui e que, vamos reflectir e respeitar, sobre a legitimidade de cada um tem para escolhera a forma que considerar digna como quer terminar os seus dias, e o papel que o Estado deverá ter, sobre toda esta problemática. Muito se teria evitado se tivesse havido uma consulta popular, que muitos parecem temer, apesar de toda a sua legitimidade.

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