Por diversas vezes afirmei aqui a
minha discordância da prática política de António Costa. Continuo a achá-lo um
político intelectualmente desonesto e, até mesmo maquiavélico relativamente aos
seus opositores. Mesmo em relação a alguns dos seus correligionários percebe-se
que actua com absoluta frieza egoísta. Por outras palavras, pensa primeiro
nele, depois no partido, e só depois no país. A sua recente carta aos militantes,
apenas se tratou de vingar a eleição de Pedro Nuno Santos, que objectivamente, nunca
foi uma escolha sua. Serviu-se dele enquanto mentor da geringonça, mas nunca
pensou nele como continuador do seu legado. Com um pensamento ardiloso, consegue
antecipar momentos futuros para depois lhe dar a machadada fatal, quando a
oportunidade chega – vela-se a sua relação com António José Seguro e com José
Sócrates.
Vem isto a propósito das
dificuldades que Montenegro vem sentido nesta sua experiência governativa.
Dificuldades que acentuam alguma ingenuidade face ao que António Costa lhe
deixou.
Montenegro queria marcar uma
diferença na reposição de benefícios que António Costa nunca abriu mão, mesmo
com saldos orçamentais positivos. E nunca o fez porque achava que ao fazê-lo
iria abrir uma caixa de Pandora, quase impossível de controlar. Mesmo
considerando como justificáveis os aumentos concedidos a várias classes profissionais,
a coberto do superavit que Montenegro recebeu do seu antecessor, neste momento já
não tem condições para satisfazer às exigências das corporações, por mais
justas que elas sejam.
No SNS - Serviço Nacional de
Saúde aconteceu algo semelhante. Quem quiser analisar com desprendimento o que
aconteceu ao SNS durante os oito anos da gestão do PS, só pode entender que
veio de mal a pior. A degradação do SNS começou com o horário das 35 horas, que
tornaram ingerível o seu funcionamento. Esta necessidade traduziu-se num substancial
aumento dos investimentos, e na necessidade da contratação de inúmeros quadros
para suprir as necessidades. Seguiu-se a Pandemia, à qual o país respondeu como
qualquer outro país comunitário, oscilando entre o muito bom e o muito mau. A
desastrosa gestão de Marta Temido determinou a opção dos portugueses de
recorrer aos seguros de saúde (4 milhões), como forma de obter as respostas que
o SNS, não conseguia dar. António Costa imperturbável, imitou-se a fazer aquilo
que sabia fazer melhor – atirar dinheiro sobre os problemas, e aguardar até que
novos problemas surgissem.
Montenegro com alguma ingenuidade
prometeu algo que a sua ministra da saúde sabia que não conseguia concretizar,
e se não sabia, ainda é pior. Passados os tais sessenta dias prometidos, o que
se vê é que o SNS está tão degradado, com inúmeras carências que vão ser
precisos muitos anos para que alguma solução duradoura possa ser alcançada. O
recente caso do INEM, é disto um exemplo paradigmático. Com um orçamento de 150
milhões de €, funciona da forma que se viu, porque não consegue preencher as
suas necessidades em recursos humanos, ou mesmo em comprar ambulâncias. É fácil
compreender que este não é um problema novo, mas foi muito mal gerido pela
actual ministra da saúde e pelo primeiro-ministro. António Costa nunca teria
deixado as coisas chegar até onde chegaram. Provavelmente não seria capaz de
resolver o problema, mas havia de arranjar uma solução para que o assunto
ficasse esquecido por algum tempo.
O voluntarismo de Montenegro de
querer resolver problemas mais do que justos, esbarrou na matreirice de Costa,
muito mais sabido e que não deixou passar a oportunidade de agarrar o conforto
de um cargo europeu, apesar do superavit de que tanto se orgulhava. Ficamos com
a sensação de que aquelas “boas contas”, eram um presente envenenado.
Montenegro com este menino nos braços, não sabe como lhe mudar a fralda!
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