domingo, 17 de novembro de 2024

A HERANÇA ARMADILHADA DE ANTÓNIO COSTA

 

Por diversas vezes afirmei aqui a minha discordância da prática política de António Costa. Continuo a achá-lo um político intelectualmente desonesto e, até mesmo maquiavélico relativamente aos seus opositores. Mesmo em relação a alguns dos seus correligionários percebe-se que actua com absoluta frieza egoísta. Por outras palavras, pensa primeiro nele, depois no partido, e só depois no país. A sua recente carta aos militantes, apenas se tratou de vingar a eleição de Pedro Nuno Santos, que objectivamente, nunca foi uma escolha sua. Serviu-se dele enquanto mentor da geringonça, mas nunca pensou nele como continuador do seu legado. Com um pensamento ardiloso, consegue antecipar momentos futuros para depois lhe dar a machadada fatal, quando a oportunidade chega – vela-se a sua relação com António José Seguro e com José Sócrates.

Vem isto a propósito das dificuldades que Montenegro vem sentido nesta sua experiência governativa. Dificuldades que acentuam alguma ingenuidade face ao que António Costa lhe deixou.

Montenegro queria marcar uma diferença na reposição de benefícios que António Costa nunca abriu mão, mesmo com saldos orçamentais positivos. E nunca o fez porque achava que ao fazê-lo iria abrir uma caixa de Pandora, quase impossível de controlar. Mesmo considerando como justificáveis os aumentos concedidos a várias classes profissionais, a coberto do superavit que Montenegro recebeu do seu antecessor, neste momento já não tem condições para satisfazer às exigências das corporações, por mais justas que elas sejam.

No SNS - Serviço Nacional de Saúde aconteceu algo semelhante. Quem quiser analisar com desprendimento o que aconteceu ao SNS durante os oito anos da gestão do PS, só pode entender que veio de mal a pior. A degradação do SNS começou com o horário das 35 horas, que tornaram ingerível o seu funcionamento. Esta necessidade traduziu-se num substancial aumento dos investimentos, e na necessidade da contratação de inúmeros quadros para suprir as necessidades. Seguiu-se a Pandemia, à qual o país respondeu como qualquer outro país comunitário, oscilando entre o muito bom e o muito mau. A desastrosa gestão de Marta Temido determinou a opção dos portugueses de recorrer aos seguros de saúde (4 milhões), como forma de obter as respostas que o SNS, não conseguia dar. António Costa imperturbável, imitou-se a fazer aquilo que sabia fazer melhor – atirar dinheiro sobre os problemas, e aguardar até que novos problemas surgissem.

Montenegro com alguma ingenuidade prometeu algo que a sua ministra da saúde sabia que não conseguia concretizar, e se não sabia, ainda é pior. Passados os tais sessenta dias prometidos, o que se vê é que o SNS está tão degradado, com inúmeras carências que vão ser precisos muitos anos para que alguma solução duradoura possa ser alcançada. O recente caso do INEM, é disto um exemplo paradigmático. Com um orçamento de 150 milhões de €, funciona da forma que se viu, porque não consegue preencher as suas necessidades em recursos humanos, ou mesmo em comprar ambulâncias. É fácil compreender que este não é um problema novo, mas foi muito mal gerido pela actual ministra da saúde e pelo primeiro-ministro. António Costa nunca teria deixado as coisas chegar até onde chegaram. Provavelmente não seria capaz de resolver o problema, mas havia de arranjar uma solução para que o assunto ficasse esquecido por algum tempo.

O voluntarismo de Montenegro de querer resolver problemas mais do que justos, esbarrou na matreirice de Costa, muito mais sabido e que não deixou passar a oportunidade de agarrar o conforto de um cargo europeu, apesar do superavit de que tanto se orgulhava. Ficamos com a sensação de que aquelas “boas contas”, eram um presente envenenado. Montenegro com este menino nos braços, não sabe como lhe mudar a fralda!

 

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