sexta-feira, 1 de novembro de 2024

DONALD TRUMP E A COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL

 

Há já alguns anos me venho interessando pelos fenómenos que envolvem o processo comunicacional e, em particular, sobre aquilo que se convencionou chamar de linguagem não verbal ou linguagem corporal.

A linguagem não verbal refere-se à comunicação que ocorre sem o uso de palavras. Ela inclui expressões faciais, gestos, postura, contacto visual, tom de voz e até o uso do espaço físico. Esses elementos podem transmitir emoções, intenções e significados que muitas vezes complementam, ou até contradizem o que é dito verbalmente. A linguagem não verbal é fundamental para a comunicação eficaz, pois ajuda a interpretar o contexto e a intenção por trás das palavras. Acresce ainda referir que muito destes sinais, ocorrem de forma reflexa e não intencional.

E há personagens que pela exuberância que adoptam quando comunicam, me levam a questionar se a linguagem corporal e não verbal adoptada durante o discurso, estão em sintonia com a mensagem que pretendem passar. É o caso de ex-Presidente Donald Trump. Quero antes de continuar, fazer uma declaração de interesse: considero o indivíduo algo estranho, ou talvez exótico aos olhos de um europeu. Se eu fosse americano, nunca votaria em tal candidato. Igualmente todo o sistema político americano, e particularmente a complexidade dos procedimentos eleitorais causam-nos alguma estranheza.

Nesta campanha eleitoral, tenho observado com alguma atenção a prestação dos dois concorrentes, no que à linguagem não verbal diz respeito. Se Kamala Harris aparece aos nossos olhos como um político “normal”, como aqueles que observamos por estas paragens; já Donald Trumpo, revela uma linguagem não verbal, bem mais complexa e difícil de desmontar. Por esta razão irei dedicar mais atenção à prestação deste candidato.

Kamala Harris apresenta um discurso simples, fluido, com ideias precisas e bem estruturadas adaptadas ao tipo de assembleia a que se dirige. Assume, invariavelmente uma atitude alegre, bem-disposta e positividade na comunicação. Toma uma postura descontraída, dá gargalhadas quando refere algo alegre, gestos e expressões sem grande amplitude apenas evidenciando, aqui e ali, uma ideia que precisa de ser evidenciada. As mãos são mantidas à frente do corpo, abertas, com movimentos simples e de amplitude mediana, raramente acima do nível dos ombros. Isto parece indicar alguém amistoso, disponível para ouvir, para aceitar, ou sem nada a esconder.

  



Donald Trump tem uma postura invariavelmente arrogante, altiva, insultuoso, narcisista, antifeminista, ofensiva e desagradável. Uma presença demasiado formal (O tema do homem do lixo, é um exemplo típico duma postura desconexa com o personagem). Não tem um discurso estruturado, utiliza uma oratória básica, salta frequentemente de tema e é muito repetitivo e tem seguidores indefectíveis no eleitorado iliterado. Mas é no domínio dos gestos, das expressões faciais e encenações, que evidencia alguns sinais que muitos classificam como verdadeiros tiques. Quem já assistiu às suas prestações pode identificar com relativa facilidade, que repete quase à exaustão uma série deles. Provavelmente como um mecanismo de defesa.  Como não se incomoda com mentira, o uso repetitivo de gesticulação pré-estudada, pode ser percebido como um meio para dar solidez com um discurso facilmente desmentido num contraditório sério, a que ele repetidamente

Alguns destes gestos iremos tentar desmontar, numa interpretação muito pessoal e certamente influenciada pela minha discordância confessa relativamente à personalidade em apreço.

1.        O OK

   



Gesto: A pinça OK entre o polegar e o indicador

Significado: Mostra convicção e controlo da sua verdade.

Este gesto, assim como o polegar levantado é repetidamente usado por Trump, e significa uma postura de convicção de quem se acha o dono da verdade. Frequentemente, o “fact check”, como se viu no recente debate na ABC News, veio repor que tanta certeza, afinal não tem correspondência com a verdade.

2.        OK + L

   



Gesto: gesto OK emparelhado com um dedo L a apontar alternadamente para cima

Significado – O polegar levantado indica concordância ou aprovação, mas também há quem considere um gesto ameaçador. Já o gesto L pode ter diferentes interpretações: na cultura anglo-saxónica é referido como perdedor (looser), mas pode ter muitos outros significados. Mas se o polegar for apontado (como uma pistola) a um indivíduo ou assistência, pode significar um gesto agressivo e de uma certa atitude de superioridade em relação aos demais. Dá ideia de quem tem a arma é que dita as leis. Por outro lado, coloca em situação de inferioridade o oponente, seja individualmente, seja a uma assistência. Trump tem usado este gesto como reforço com estes dois significados.

3. O apontar (indicador em riste)

   




Gesto: Apontar agressivamente o dedo

Significado: Pode ter diversos significados, consoante o contexto: como um sinal de autoridade e/ou advertência; pode também querer indicar reprovação ou ameaça. Este gesto está conotado com uma atitude ameaçadora de quem se sente em situação de superioridade relativamente a alguém. Pode também ser um sinal de aviso ou de reprovação. Não é à toa que o povo refere a este propósito: “Não se aponta que fica feio” e “quando se aponta um dedo a alguém, os restantes apontam para nós”.

4.Braços e as palmas abertas

 



Gesto: Abrir as palmas das mãos enquanto fala

Significado: Mostrar gesto de abertura, de convite de aceitação

Este gesto em Trump é daqueles onde parece não ser coincidente com a sua oratória. Se por um lado convida os americanos a perfilharem as suas propostas, não se coíbe de insultar aqueles que não as aprovam.

5 O Muro (parede)

 



Gesto: gesto de “fica aí” com as duas mãos juntas e a empurrar uma parede imaginária

Significado: pode significar rejeição, defesa, impedimento, bloqueio.

Há quem veja neste gesto uma formas de dar consistência a algumas das bandeiras da sua retórica: os imigrantes, a prometida deportação em massa de imigrantes ilegais, a construção do Muro na fronteira com o México. O seu discurso populista assenta muito na defesa do “nós contra eles”, e este gesto pode ser entendido como a forma de interpor uma barreira, como a única forma de garantir o slogan Make America Great Again.

Em resumo, muita da linguagem não verbal praticada por Trump parece revelar muitas incongruências e contradições. Ou seja, usa de forma repetitiva estes gestos referidos e muitas vezes mistura-os todos num mesmo tema. Também é preciso recordar que Donald Trump foi alguém que teve um programa de televisão - The Aprentice, que lhe deu um grande à vontade em frente às câmaras. Esta experiência da televisão fez de Donald Trump um verdadeiro intertainer e fez da sua prestação política uma verdadeira actuação artística. O que me leva a ficar na dúvida se todos aqueles gestos não aparecem de forma natural, e a tal contradição residir no facto de também ser aqueles que surgirem de forma preparada e ensaiada. Ou seja, mesmo que a linguagem corporal surgir espontaneamente, a maioria parece ser algo estudado e treinado, o que pode ser explicado pelo elevado índice de rejeição que tem, apesar de ter a preferência de muitos americanos.

É certo que o estudo desta temática, permite muitas interpretações pela natural subjectividade da análise. Por tudo isto, e não sendo eu um especialista, mas tão só um curioso, aceito com a maior naturalidade qualquer outra leitura que se oponha a esta minha análise.

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