Os portugueses foram chamados,
uma vez mais, às urnas por puro capricho dos líderes dos dois principais
partidos políticos. Todo o ruído criado à volta dos negócios de Luís Montenegro
e das suspeitas de favorecimento partidário e tráfico de influências, parece
não ter despertado nos eleitores o mesmo tipo de desconfiança. Pode-se dizer
que estes assuntos deveriam merecer um protesto vigoroso, mas parece que não
foi isso que preocupou os eleitores.
Mas estas eleições parecem
mostrar algumas observações curiosas: uma baixa nos valores da abstenção, o que
é sempre uma boa notícia; um aumento significativo da votação jovem (aparentemente
nos partidos de direita); reconhecer que o caso SPINUNVIVA, foi desvalorizado pelos
portugueses; o trambolhão dos partidos da extrema-esquerda; o aumento da
votação na AD; a considerável queda do PS e a grande vitória do CHEGA.
O grande vitorioso é a AD e,
muito em particular Luís Montenegro, que arriscou uma moção de confiança,
apesar da forma desastrosa como geriu os problemas dos seus negócios. Mas há
que reconhecer que a AD foi, de facto o grande vencedor. Ou seja, a AD subiu a
sua votação, a ponto de sozinha ter mais votos e mais mandatos que toda a esquerda
unida. Ou seja, não tem necessidade de estabelecer nenhum acordo com a IL,
embora penso que a nível parlamentar deveriam ser estabelecidos entendimentos
pontuais.
Outro grande vendedor na noite
foi, sem margem para dúvidas, o CHEGA. As razões que justifiquem esta vitória
podem ser equacionadas especulando no mote da campanha – o problema da
emigração e os achaques de Ventura que foram vergonhosamente explorados. Pelos
vistos, estes dois aspectos parecem não ter incomodado os seus apoiantes. Resta
fazer uma reflexão sobre o resultado do CHEGA. Considerando que a AD e a IL
subiram a sua votação, somos levados a concluir que os resultados do CHEGA,
foram conseguidos nos eleitores de esquerda. O Sul e Interior são disso um caso
exemplar.
O grande derrotado da noite foi o
PS. Antes demais é preciso não esquecer que António Costa deixou o partido em
frangalhos, mesmo gozando de uma confortável maioria absoluta. Pirou-se para
Bruxelas. Trocou o partido por um cargo europeu, muito apetitoso e bem
remunerado. A responsabilidade deste descalabro do PS deve-se à aposta num “cavalo
errado” – Pedro Nuno Santos. Pedro Nuno Santos apesar de ter na mão a
estrutura do partido, não foi capaz de perder a sua arrogância, a sua
infantilidade e o modo desastroso como exerceu a sua liderança. Recorde-se que
o PS escolheu para líder, alguém que se tinha demitido do governo, por indecente
e má figura. É preciso reconhecer que encontrou o partido abalado pelo tombo
nas anteriores legislativas. Apesar de ter feito um esforço de moderação na sua
postura, facilmente se percebia que aquele não era o seu registo. Tudo parece
indicar que o papão que usou durante toda a campanha – o perigo do país ser
governado por um liberalismo feroz, não parece ter colhido junto dos eleitores.
Todos os partidos à esquerda do
PS, tornaram-se irrelevantes, face à correlação de forças. E isto deve dar que
pensar, o porquê desta modificação em pouco mais de dois anos. Excepção feita
ao LIVRE, que apesar do seu crescimento, não deixa de corporizar uma certa “esquerda
caviar”, e o mais moderado dos radicais de esquerda.
A alteração estrutural do bipartidarismo
com o aparecimento do CHEGA, ao eleger 50 deputados em 2024, não mereceu dos
partidos do dito “arco da governação” a devida atenção. Os resultados aí
estão.
Pedro Nuno Santos está
profundamente fragilizado, e a sua continuidade à frente do partido ficou
seriamente abalada. Ao PS não lhe basta agora lamber as feridas. É bom não
esquecer que vamos ter eleições autárquicas em Setembro. E uma derrota
clamorosa nas autárquicas poderá ser devastadora. Os resultados de CDU, BE e
PAN devem servir de aviso ao PS para repensar a sua estratégia, no que ao seu
posicionamento ideológico diz respeito. É bom não esquecer que o PS ainda não
escolheu o seu candidato às presidenciais de 2026. E os putativos candidatos poderão
repensar a sua posição, face à esta derrota. Em suma, Pedro Nuno Santos tem
poucas condições para continuar na liderança. Se o fizer, corre o risco de
tornar o PS num partido marginal, e isso não era bom para a democracia. Com a
demissão de Pedro Nuno Santos, José Luís Carneiro parece ser o mais desejado.
Vai encontrar o partido feito em cacos e, a ser ele o escolhido, vai ter um trabalho
hercúleo pela frente, e o tempo escasseia. A opção poderá ser outra. Vamos
aguardar.
Luís Montenegro tem um horizonte
de pelo menos um ano de uma governação confortável. Resta saber se o “não é
não” é para manter, a outra alternativa é que tipo de entendimento estará
disposto a fazer com a IL. O PS pelo seu lado, vai certamente reavaliar a sua
posição quando tiver de viabilizar qualquer iniciativa parlamentar, sob pena de
dar todo o protagonismo ao CHEGA. Felizmente que o CHEGA, apenas conseguiu
ocupar o terceiro lugar. O segundo lugar do PS, obteve uma escassa margem sobre
o CHEGA nos votos expressos. Mas o PS, deve ter aprendido a lição das
consequências das votações ao lado deste partido. Neste contexto, penso que o
PS, vai muito provavelmente, ter uma atitude muito mais moderada.
Uma palavra final para os
eleitores. Ninguém sabe as motivações que cada um optou para dar sentido ao seu
voto. Estabilidade e governabilidade, serão provavelmente as mais prováveis.

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