quarta-feira, 17 de julho de 2019

AÇORIANIDADE


Este termo inventado por Vitorino Nemésio, representa, ou pretende representar, algo muito difícil de explicar a um não ilhéu. Na minha modesta e humilde opinião, o termo serve para identificar uma forma muito peculiar de quem vive ou viveu numa ilha, e muito especialmente num arquipélago, perdido algures no Atlântico Norte. O isolamento, o clima agreste e por vezes inclemente, determina uma personalidade rude e batalhadora, que diariamente luta para vencer todas as adversidades que esta natureza arrebatadora lhe impõe. Esta natureza de uma beleza estonteante, chega por vezes, a ser “madrasta”e que, requentemente, se manifesta por uma actividade sísmica e vulcânica, com uma crueldade assustadora. O mar imenso que nos rodeia, serviu sempre como uma porta de entrada e de saída à nossa imensa diáspora, mas também por manifestações de uma braveza que nos impõe enormes dificuldades de isolamento e comunicação, lembrando sempre a nossa infinita insignificância! Foi também este mar que, em tempos idos, traziam piratas que nos faiam recuar para partes remotas e escondidas entre montanhas, grotas e penhascos quase inacessíveis, como único meio de defesa e sobrevivência.
Mas este pedaço de chão que tanto nos amargura, também nos faz despertar um tamanho sentimento de apego á terra, que mesmo quando estamos longe, ele persiste no mais fundo dos nossos corações. As razões para tal são desconhecidas, pelo menos para mim. Serão talvez os usos, costume e tradições distintivas e peculiares, que nos fazem sentir um orgulho indisfarçável. Será, provavelmente, esta(s) pronúncia(s) tão característica que trazem à memória uma herança. de muitos séculos de história e de origens muito diversificadas, misteriosas e mal conhecidas, e a que o isolamento preservou até aos nossos dias.
Por outro lado, o apego e amor á terra é algo que está indelevelmente preso á alma do açoriano, traduzindo talvez, uma incompreensível dualidade de temer o mar que lhe é adverso e, esse mesmo mar que lhe dá o sustento e o portal que o liga ao mundo, quando quer ou necessita sair!. Foi também o mar que tornou o ilhéu em aventureiro, quando o foguete estoura e indica o chamamento na caça á baleia, ou ainda lhe dá o espírito pioneiro e destemido de cruzar oceanos, numa frágil casca de noz, em busca de um mundo melhor, como no caso descrito no “Barco e o Sonho”. Esta dualidade também se vê no amor à terra, por tudo aquilo que ela lhe dá: o solo fértil onde pode extrair quase tudo, a abundância de água, o clima temperado, a beleza das paisagens que o rodeiam. A quietude das lagoas e a explosão de cores das nossas hortências, azáleas, conteira, para falar apenas nas mais exuberantes. A beleza e calmaria das madrugadas e a observação de um por do sol em direcção ao ocidente, o elevado teor de humidade, que nos dá a fertilidade dos nossos solos, também nos carrega com o peso da “mornaça” e nos retira, por vezes, a vontade de continuar a luta. Todos estes contrates tornam o ilhéu num ser melancólico e contemplativo e sempre grato e reconhecido à Mãe Natureza, pela graça de aqui ter nascido.
A personalidade do açoriano pode ser definida numa matriz de enorme recato e desconfiança perante aquilo que é novo e exótico, para logo se transformar numa sincera hospitalidade, logo que se quebra o gelo inicial. As muitas dificuldades que a vivência na Ilha determina, fez do açoriano um ser inconformado e que nunca desiste perante as dificuldades. A mais eloquente prova disto são os ciclos económicos que determinaram a vivência e a subsistência dos açorianos. Começou primitivamente com o ciclo do pastel durante a idade média, para quando este acabou se dedicar à produção de cereais. Quando este entrou em declínio. Surgiu o ciclo da laranja. Concomitantemente com isto, o espírito inovador e empreendedor levou o açoriano a experiências únicas, como a produção de chá e de frutas exóticas, que ainda persistem nos dias de hoje. O ciclo da produção leiteira fez dos produtos lácteos açorianos uma referência quer internamente, quer em mercados externos, particularmente exigentes. Assistimos agora a um momento de viragem, com o aparecimento e desenvolvimento da indústria do turismo. Não verga perante a adversidade, como também nunca se conformou, com a negação aos seus mais profundos e legítimos sentimentos autonomistas. Talvez por isso o nosso brasão de Armas, tem como legenda. Antes morrer livres que em paz sujeitos.
Eu diria que a personalidade de um açoriano assenta numa matriz de contrastes que lhe conferem esta vontade de aventura, gratidão, conquista e sobrevivência ás agruras que a ilha lhe impõe, numa constante vontade de partir, sem nunca esquecer o som do mar que o rodeia, ou o cheiros, das flores, do salitre do mar, ou da terra molhada. Reflectida eloquentemente na sua cultura popular com a tristeza da Sapateia e a alegria de uma Chamarrita.
Foram muitos destes princípios que marcaram a vida e obra dos nossos maiores: Antero de Quental, Manuel de Arriaga, Francisco de Lacerda, Vitorino de Nemésio, Dias de Melo ou Natália Correia.
A terminar, gostava de aqui deixar nota de algum constrangimento na abordagem deste tema, que a intelectualidade açoriana trata de forma muito mais assertiva e cientificamente sustentada, por um leigo na matéria como eu. Sou um açoriano que deixou a ilha, e que vive e adora a cidade de Santarém, que o acolheu no seu seio há mais de cinquenta anos. Sinto e vivo esta cidade, como se aqui tivesse nascido. Mas a ilha nunca deixa de estar presente, na minha forma de ser e de estar. Alguém referiu um dia que: O ilhéu pode sair da Ilha. Mas a Ilha nunca sai do Ilhéu! Esta frase reflecte, de forma eloquente, esta coisa de ser e sentir-se açoriano, e que alguns designam por Açorianidade.

Sem comentários:

Enviar um comentário