segunda-feira, 17 de agosto de 2020

O LAR DE REGUENGOS - UMA VERGONHA

 Ana Mendes Godinho: Dimensão dos surtos em lares não é demasiado ...

Os dados mais recentes deixam-nos alguma perplexidade. Os recentes casos relacionados com os cãos do João Moura e do canil clandestino em Santo Tirso, devem causar-nos a todos uma enorme repulsa, porque casos daqueles não deviam existir. Mais, os responsáveis directos e indirectos, por tais situações deviam ser judicialmente responsabilizados. A Comunicação Social, não deixou passar o acontecimento em vão, chegando mesmo a mostrar­ imagens de uma violência, perfeitamente escusada.

Durante este período de pandemia veio à tona uma realidade, no que aos lares de idosos diz respeito, muitas situações que nos devia envergonhar a todos pelo retrocesso civilizacional que evidencia. Para além da situação de clandestinidade revelada em muitos destes “lares”, com aparente conhecimento das autoridades de tutela, e da comunicação social, que passou por estes episódios com um inconcebível distanciamento, e sem nunca se atrever a por o dedo na ferida. Ou seja, não quis ir ao fundo da questão e dar-lhe o tratamento jornalístico que tais situações mereciam. Não com a finalidade de apontar culpados, mas desenvolver um esclarecimento sobre a causas porque tal acontece e responsabilizar, quem devia ter feito mais e melhor. Muitos destes responsáveis lutam com inúmeras dificuldades e só com muito sacrifício e abnegação conseguem ter as coisas a funcionar. Acontece, que em muitos casos que funcionar, é isso mesmo e nada mais do que isso. O cumprimento de rotinas diárias, em que a preocupação com o bem-estar e a dignidade dos utentes, é uma mera figura de retórica.

Sou de uma geração que foi ensinada a respeitar o idoso, por ser um depositário do conhecimento da vida e de ensinamentos que todos muito respeitavam. Eram acolhidos no seio da família e por ela acarinhados e tratados. Temos que reconhecer que nos dias de hoje, pela intensidade do envolvimento profissional, o acolhimento de um idoso na casa da família, revela-se muito difícil e mesmo pouco saudável para a pessoa idosa, pelo isolamento e solidão que estaria votado a maior parte do dia.

Por isso, o papel e a acção das organizações votadas para tal efeito, deviam ser monitorizadas e acompanhadas com uma frequência muito mais apertada. Para alem das condições físicas e funcionais, a preocupação e o respeito pela dignidade do idoso, devia representar a principal preocupação de quem tem essa responsabilidade: os profissionais destes lares e dos responsáveis da supervisão. A realidade, porém, mostra um cenário muto diferente. São muitos os “lares” que funcionam e vãos de escada, de forma clandestina, mas nem por isso desconhecida. Muitas pessoas, por limitações financeiras, não lhes restam outra alternativa.

O que aconteceu no lar de Reguengos de Monsaraz, onde um surto de covid-19 provocou a morte de 18 pessoas, é disso um lamentável exemplo. Idosos doentes, desidratados, e sem registo da medicação, impossibilidade de garantir o distanciamento social, falta de pessoal, são apenas algumas das falhas encontradas. Segundo este mesmo relatório, muitas eram as falhas observadas, e perante tal situação, a ministra Ana Mendes Godinho, responsável pelo ministério que tutela esta actividade, limita-se a dizer que “a dimensão dos surtos nos lares não é demasiado grande”, “a notícia foi descontextualizada de forma grave”, Reguengos é um dos surtos que tivemos. A minha preocupação tem de ser estrutural.”. Ou seja, para a senhora ministra, a morte de 18 pessoas, numa instituição da sua supervisão, é apenas um número no panorama nacional.

Eu tenho 74 anos, não sei o que o destino me reserva. A probabilidade de ter que recorrer a uma destas instituições pode ser uma realidade dentro em pouco. Não temo ir para um lar. O que me preocupa é, que perante uma situação semelhante à de Reguengos, alguém com responsabilidade, se limite a lavar as mãos como Pilatos. Pela entrevista da senhora ministra, qualquer pessoa na minha situação pode ficar descansada, estas mortes, globalmente, são apenas um detalhe sem importância.

Pior ainda, é que se ouve apontar responsabilidades à Ordem dos Médicos, por não ser essa a sua função. Aos órgãos de comunicação social, pelos termos empregues nos cabeçalhos, mais aos lares que não respeitaram as regras definidas para o exercício da actividade, como se a morte de 18 idosos fosse um mero detalhe.

Triste sina esta de ser idoso em Portugal, aqui e agora.

 

 

 

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