
Os dados mais recentes deixam-nos
alguma perplexidade. Os recentes casos relacionados com os cãos do João Moura e
do canil clandestino em Santo Tirso, devem causar-nos a todos uma enorme repulsa,
porque casos daqueles não deviam existir. Mais, os responsáveis directos e
indirectos, por tais situações deviam ser judicialmente responsabilizados. A
Comunicação Social, não deixou passar o acontecimento em vão, chegando mesmo a mostrar
imagens de uma violência, perfeitamente escusada.
Durante este período de pandemia
veio à tona uma realidade, no que aos lares de idosos diz respeito, muitas
situações que nos devia envergonhar a todos pelo retrocesso civilizacional que evidencia.
Para além da situação de clandestinidade revelada em muitos destes “lares”, com
aparente conhecimento das autoridades de tutela, e da comunicação social, que
passou por estes episódios com um inconcebível distanciamento, e sem nunca se
atrever a por o dedo na ferida. Ou seja, não quis ir ao fundo da questão e
dar-lhe o tratamento jornalístico que tais situações mereciam. Não com a finalidade
de apontar culpados, mas desenvolver um esclarecimento sobre a causas porque
tal acontece e responsabilizar, quem devia ter feito mais e melhor. Muitos
destes responsáveis lutam com inúmeras dificuldades e só com muito sacrifício e
abnegação conseguem ter as coisas a funcionar. Acontece, que em muitos casos
que funcionar, é isso mesmo e nada mais do que isso. O cumprimento de rotinas
diárias, em que a preocupação com o bem-estar e a dignidade dos utentes, é uma
mera figura de retórica.
Sou de uma geração que foi
ensinada a respeitar o idoso, por ser um depositário do conhecimento da vida e
de ensinamentos que todos muito respeitavam. Eram acolhidos no seio da família
e por ela acarinhados e tratados. Temos que reconhecer que nos dias de hoje, pela
intensidade do envolvimento profissional, o acolhimento de um idoso na casa da
família, revela-se muito difícil e mesmo pouco saudável para a pessoa idosa,
pelo isolamento e solidão que estaria votado a maior parte do dia.
Por isso, o papel e a acção das organizações
votadas para tal efeito, deviam ser monitorizadas e acompanhadas com uma frequência
muito mais apertada. Para alem das condições físicas e funcionais, a
preocupação e o respeito pela dignidade do idoso, devia representar a principal
preocupação de quem tem essa responsabilidade: os profissionais destes lares e dos
responsáveis da supervisão. A realidade, porém, mostra um cenário muto diferente.
São muitos os “lares” que funcionam e vãos de escada, de forma clandestina, mas
nem por isso desconhecida. Muitas pessoas, por limitações financeiras, não lhes
restam outra alternativa.
O que aconteceu no lar de
Reguengos de Monsaraz, onde um surto de covid-19 provocou a morte de 18 pessoas,
é disso um lamentável exemplo. Idosos doentes, desidratados, e sem registo da
medicação, impossibilidade de garantir o distanciamento social, falta de
pessoal, são apenas algumas das falhas encontradas. Segundo este mesmo
relatório, muitas eram as falhas observadas, e perante tal situação, a ministra
Ana Mendes Godinho, responsável pelo ministério que tutela esta actividade,
limita-se a dizer que “a dimensão dos surtos nos lares não é demasiado
grande”, “a notícia foi descontextualizada de forma grave”,
“Reguengos é um dos surtos que tivemos. A minha
preocupação tem de ser estrutural.”. Ou seja, para a senhora
ministra, a morte de 18 pessoas, numa instituição da sua supervisão, é apenas
um número no panorama nacional.
Eu tenho 74 anos, não sei o que o
destino me reserva. A probabilidade de ter que recorrer a uma destas
instituições pode ser uma realidade dentro em pouco. Não temo ir para um lar. O
que me preocupa é, que perante uma situação semelhante à de Reguengos, alguém
com responsabilidade, se limite a lavar as mãos como Pilatos. Pela entrevista
da senhora ministra, qualquer pessoa na minha situação pode ficar descansada,
estas mortes, globalmente, são apenas um detalhe sem importância.
Pior ainda, é que se ouve apontar
responsabilidades à Ordem dos Médicos, por não ser essa a sua função. Aos
órgãos de comunicação social, pelos termos empregues nos cabeçalhos, mais aos
lares que não respeitaram as regras definidas para o exercício da actividade, como
se a morte de 18 idosos fosse um mero detalhe.
Triste sina esta de ser idoso em
Portugal, aqui e agora.
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