terça-feira, 25 de agosto de 2020

UMA FOTO DESFOCADA DE REGUENGOS

 Tinha prometido a mim mesmo não votar mais a este assunto. Não resisti pelos últimos desenvolvimentos. Porque se estremaram posições e onde o essencial, nunca foi levado em conta. Ou seja, todos os intervenientes defenderam os seus pontos de vistas, mas o que indignou e preocupa o vulgar cidadão, é a forma como as instituições, tratam os idosos indefesos. No caso de Reguengos, por tudo aquilo que se sabe(?), havia utentes que estavam desidratados, sem tratamento, e/ou sem o seu registo, em condições higiénicas deploráveis, e onde foram registados 18 óbitos.

Aparentemente todos os que, directa ou indirectamente estiveram envolvidos neste negro episódio, tentaram alijar responsabilidades, atirando para cima dos outros o ónus da questão. Se pudéssemos tirar uma fotografia de todo estes imbróglios iriam, certamente, aparecer desfocados todos os seus intervenientes.

Esteve mal a instituição por não ter, atempadamente desenvolvido todos os esforços para resolver, pelo que se sabe, uma situação degradante que se vivia naquele espaço. Esteve mal o presidente da câmara, que por inerência era presidente da fundação que geria o lar. Esteve mal a Segurança Social local na sua responsabilidade de tutela. Esteve mal a ARS local por ter permitido, ou ignorado que tal se tivesse verificado. O facto destes responsáveis terem uma ligação partidária ao PS, quero concluir que é uma mera coincidência. Noutros locais o emblema partidário será outro. Blog TURNO ZERO

Estiveram mal os médicos que se recusaram a prestar serviço no lar, se outra razão não houvesse, havia sempre o seu compromisso com o juramento de Hipócrates. Esteve mal a Ordem dos Médicos por ter extravasado, aparentemente, as suas competências, ao elaborar um relatório que não lhe competia.

Esteve mal a Ministra do Trabalho pela insensibilidade demonstrada, face aos dados constantes do tal relatório da OM e de mais outros três. Por haver alguma contradição sobre aquilo que era revelado nestes relatórios, mais se justificaria a preocupação da srª ministra. Se um relatório oficial (Segurança Social) foi entregue no ministério público, era importante, para total esclarecimento deste assunto, o seu conteúdo fosse tornado público.

Esteve mal António Costa ao dar total cobertura à sua ministra, que se desculpou invocando que as suas palavras estariam descontextualizadas. Em situações semelhantes, o desfecho foi outro!

Esteve mal o líder da oposição pelo evidente aproveitamento político deste triste acontecimento.

Esteve mal o sr. presidente da República, sempre pronto a comentar tudo e mais alguma coisa, pelo seu silêncio.

”Last but not the least” e nem por isso menos importante, esteve mal o Jornal Expresso, pela divulgação de um desabafo do 1º ministro numa situação “off record”, lançando assim, mais gasolina na fogueira. Esta violação da ética e deontologia jornalística, transforma este jornal de referência num sucedâneo de títulos como o Correio da Manhã, sobretudo quando o seu director é irmão do entrevistado. Imperdoável.

Pelo que se vê, nenhum dos intervenientes em toda esta novela cumpriram ou geriram, de melhor forma, as suas actuações, competências e responsabilidades. Não fosse o espectro dos 18 mortos, e de uns tantos idosos abandonados à sua sina, e que teimosamente estavam presentes e bem focados. Todos os outros figurantes, referidos apareceram na “fotografia” totalmente desfocados. É por isso lamentável que o que se passou naquele lar, tivesse sido relegado para um plano totalmente marginal, para dar evidência a tricas corporativas, políticas, partidárias, ou quaisquer outras. Se estamos todos a caminhar para a velhice, o quadro que observamos não é muito animador. Aqueles idosos foram neste caso o elo mais fraco, como se pode observar, e sobretudo feridos na sua dignidade, e isso não pode ser aceitável.

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