quinta-feira, 10 de outubro de 2019

AS DIFICULDADES DO PRÓXIMO GOVERNO


A composição do Parlamento saído destas eleições vai apresentar uma configuração diferente, tanto à esquerda, como à direita. O novo arranjo parlamentar tem, aparentemente, tornado mais difícil a formação a Geringonça II. António Costa bem se esforça com tentativas de sedução, sobretudo entre os PAN e o Livre. Já com o BE as coisas têm sido mais complicadas, apesar de uma despudorada tentativa de Catarina Martins, na sua disponibilidade para viabilizar, com algumas condições, o próximo executivo. Percebe-se porquê. Manteve a representação parlamentar, mas perdeu um número significativo de votantes. O PCP, como partido anti-sistema, já compreendeu que a ajuda que deu à Geringonça I, o prejudicou eleitoralmente e não se mostra muito disponível. Por isso, vai voltar a sua luta para a rua, usando a enorme influência que ainda tem no sector sindical. À direita, a aparente disponibilidade de Rui Rio a entendimentos pontuais, encontra uma forte oposição interna. Por tudo isto, António Costa, não só vai ter mais dificuldade na formação do seu gabinete, como vai ter um parlamento mais plural, escomprometido e estremado, pela chegada do Livre, do Iniciativa Liberal e do Chega. O quase desaparecimento do CDS e a hecatombe do PSD, vão certamente promover o aparecimento de novas lideranças, que vão querer mostrar serviço.
Prevejo que a próxima legislatura vai ser muito mais difícil de levar por diante, do que a anterior, pelas exigências de caracter social à esquerda, e reformistas à direita. A degradação generalizada dos serviços públicos, não pode esperar mais por uma intervenção urgente. A conjuntura excepcional e irrepetível de que beneficiou o último executivo, dificilmente se repetirá. A conflitualidade, não se espera que dê sinais de abrandamento. Por tudo isto, algumas nuvens ensombram, o nosso futuro próximo e o executivo não irá ter grande margem de manobra.
O Brexit vai trazer uma enorme perturbação em toda a Europa. O abrandamento das economias mais fortes (os nossos principais parceiros comerciais), vão ter um forte impacto em todo o nosso sector empresarial. Se acrescentarmos a este quadro, o facto da Espanha ir sofrer dos mesmos problemas, irá determinar manobras de concorrência, que já neste momento se fazem sentir, como por exemplo, no sector agrícola,
A posição de Donald Trump, e do mais do que previsível acordo comercial entre os Estado Unidos da América e a China, não trazem nada de bom para a economia europeia. Temos visto alguma reticência do governo chinês relativamente a este assunto, mas é inegável que a dimensão e a importância destes dois mercados, é muito apetecível de parte a parte.
Uma frágil e dependente economia como a nossa, vai ter de dar uma resposta muito firme a todas estas ameaças. Tudo isto vai acontecer muito em breve, e muito pouco sabemos das propostas dos partidos que irão suportar a Geringonça II, o que pensam sobre este assunto, e quais as suas recomendações para o país enfrentar este enorme desafio!
Mas a maior dificuldade de António Costa vai ser lidar com um parlamento, menos comprometido e muito mais plural. Mesmo se considerarmos que partidos como o Livre, O Iniciativa Liberal ou o Chega, nunca terão capacidade de mudar muita coisa, isoladamente. Mas vão, certamente, provocar um “ruído” que até agora não existia. A pluralidade de opiniões é o fundamento de uma moderna democracia. A dúvida é, se todos nós, e a classe política incluída, estaremos preparados para toda esta mudança. Mas que o próximo governo vai ter uma vida muito mais difícil, não restam dúvidas a ninguém. A forma como irá enfrentar estas dificuldades representam uma incógnita, mas que irá ter repercussões na vida de todos nós, e provavelmente, pelos piores motivos. Espero que o tempo não venha a dar-me razão.

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