A eleição de André Ventura nas
últimas eleições legislativas, veio agitar muito as águas. E não há jornalista,
comentador ou simples mortal que não deixe de o presentear com muitos “mimos”. Ao
contrário, nas redes sociais, dá-lhe udo aquilo que ele deseja, a patilha de
muitas das suas intervenções. A personalidade de que estamos a falar tem tudo
de mau que um político pode ter. Defende ideias extremistas, xenófobas, homofóbico,
populista e de uma argumentação básica e pouco sustentada, sobretudo nos temas
mais sensíveis ou técnicos. O seu discurso centra-se em meia dúzia de chavões,
mas que vão ao encontro das preocupações básicas que muitos portugueses também
subscrevem: o estatuto dos ciganos, das questões da emigração, da segurança
pública, do número e composição da Assembleia da República, as inúmeras e
polémicas decisões judiciais, etc. Nas mesas dos cafés as discussões giram à
volta dos mesmos temas e com a mesma intensidade e entusiasmo do André Ventura.
Por isso, a sua eleição aconteceu porque há muitos cidadãos eleitores que se revêem
neste tipo de solução política. E é isto que é preocupante!
Este candidato eleito, parece ser
alguém que tem uma enorme vontade de promoção pessoal, seja à custa do que for.
Foi candidato à Câmara de Loures pelo PSD que o deixou cair posteriormente, mas
que na altura o promoveu. Depois tornou-se comentador desportivo, polémico e irredutível
na argumentação, encontrou na CMTV, a melhor montra para chegar aos tais
eleitores que constituem a audiência típica deste canal. Depois de muitas e
atribuladas diligências conseguiu formar um partido à sua dimensão e imagem.
Como consequência, o resultado é a sua eleição como deputado, o que lhe permite
uma exposição ainda mais poderosa – o hemiciclo. Onde vai fazer aquilo que
melhor sabe, arrastar a discussão para os seus terrenos.
A classe política reagiu muito
mal a esta eleição, se pensarmos que aquilo que lhe convém é que falem dele, e
muito. António Costa caiu na asneira de dizer que contava com todos, mas não
contava com o Chega. Na primeira oportunidade, André Ventura respondeu, que ele
é que não contava com o PS. Ou seja, deu-lhe a deixa que ele estava à espera. Certamente
é isso que vai acontecer no Parlamento, onde vai aproveitar a exposição
mediática que o lugar lhe proporciona, para expor as suas ideias.
Receio bem que André Ventura e a
sua actuação, a partir de agora, vai colher muitas simpatias. Tem um discurso
ardiloso, estudado, centrado num objectivo final, dizer aquilo que cai bem ao
seu eleitorado. De modo que quando tiver oportunidade, vai atacar em força
descredibilizando os oponentes, atribuindo-lhes a responsabilidade de tudo o
que está mal, e pondo o dedo na ferida, como no caso da redução do número de
deputados, na sua referência cirúrgica á deputada do PS, Isabel Moreira.
A possibilidade do aparecimento
do Chega e da eleição de André Ventura foi muito desvalorizada por todos: opinion
makers, poder instituído, órgãos de comunicação social, etc. A partir de
agora, André Ventura ganhou espaço e legitimidade para poder ter representação
em paridade com todos outros eleitos.
O que é importante não é condenar
e invectivar André Ventura. Ele é fruto de um descontentamento generalizado,
onde o seu discurso cai como mosca no mel. A descredibilização da classe
política, a mediocridade dos agentes políticos, os incontáveis casos de
corrupção, a degradação dos serviços públicos, o estado caótico do poder
judicial, os compadrios, os favorecimentos, encontram nos Andrés Venturas,
alguém disposto a usar estes argumentos e a lavar roupa suja, sem qualquer
decoro. Por isso, receio bem que a partir de agora, e se nada disto for mudado,
André Ventura e o Chega podem chegar longe.
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