quinta-feira, 10 de outubro de 2019

ATÈ ONDE VAI CHEGAR O CHEGA


A eleição de André Ventura nas últimas eleições legislativas, veio agitar muito as águas. E não há jornalista, comentador ou simples mortal que não deixe de o presentear com muitos “mimos”. Ao contrário, nas redes sociais, dá-lhe udo aquilo que ele deseja, a patilha de muitas das suas intervenções. A personalidade de que estamos a falar tem tudo de mau que um político pode ter. Defende ideias extremistas, xenófobas, homofóbico, populista e de uma argumentação básica e pouco sustentada, sobretudo nos temas mais sensíveis ou técnicos. O seu discurso centra-se em meia dúzia de chavões, mas que vão ao encontro das preocupações básicas que muitos portugueses também subscrevem: o estatuto dos ciganos, das questões da emigração, da segurança pública, do número e composição da Assembleia da República, as inúmeras e polémicas decisões judiciais, etc. Nas mesas dos cafés as discussões giram à volta dos mesmos temas e com a mesma intensidade e entusiasmo do André Ventura. Por isso, a sua eleição aconteceu porque há muitos cidadãos eleitores que se revêem neste tipo de solução política. E é isto que é preocupante!
Este candidato eleito, parece ser alguém que tem uma enorme vontade de promoção pessoal, seja à custa do que for. Foi candidato à Câmara de Loures pelo PSD que o deixou cair posteriormente, mas que na altura o promoveu. Depois tornou-se comentador desportivo, polémico e irredutível na argumentação, encontrou na CMTV, a melhor montra para chegar aos tais eleitores que constituem a audiência típica deste canal. Depois de muitas e atribuladas diligências conseguiu formar um partido à sua dimensão e imagem. Como consequência, o resultado é a sua eleição como deputado, o que lhe permite uma exposição ainda mais poderosa – o hemiciclo. Onde vai fazer aquilo que melhor sabe, arrastar a discussão para os seus terrenos.
A classe política reagiu muito mal a esta eleição, se pensarmos que aquilo que lhe convém é que falem dele, e muito. António Costa caiu na asneira de dizer que contava com todos, mas não contava com o Chega. Na primeira oportunidade, André Ventura respondeu, que ele é que não contava com o PS. Ou seja, deu-lhe a deixa que ele estava à espera. Certamente é isso que vai acontecer no Parlamento, onde vai aproveitar a exposição mediática que o lugar lhe proporciona, para expor as suas ideias.
Receio bem que André Ventura e a sua actuação, a partir de agora, vai colher muitas simpatias. Tem um discurso ardiloso, estudado, centrado num objectivo final, dizer aquilo que cai bem ao seu eleitorado. De modo que quando tiver oportunidade, vai atacar em força descredibilizando os oponentes, atribuindo-lhes a responsabilidade de tudo o que está mal, e pondo o dedo na ferida, como no caso da redução do número de deputados, na sua referência cirúrgica á deputada do PS, Isabel Moreira.
A possibilidade do aparecimento do Chega e da eleição de André Ventura foi muito desvalorizada por todos: opinion makers, poder instituído, órgãos de comunicação social, etc. A partir de agora, André Ventura ganhou espaço e legitimidade para poder ter representação em paridade com todos outros eleitos.
O que é importante não é condenar e invectivar André Ventura. Ele é fruto de um descontentamento generalizado, onde o seu discurso cai como mosca no mel. A descredibilização da classe política, a mediocridade dos agentes políticos, os incontáveis casos de corrupção, a degradação dos serviços públicos, o estado caótico do poder judicial, os compadrios, os favorecimentos, encontram nos Andrés Venturas, alguém disposto a usar estes argumentos e a lavar roupa suja, sem qualquer decoro. Por isso, receio bem que a partir de agora, e se nada disto for mudado, André Ventura e o Chega podem chegar longe.

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